Maturidade e aprendizado

É claro para todas nós que o envelhecimento não traz, por si só, sabedoria. A vantagem única da passagem do tempo está na diversidade de experiências que podemos ter, na possibilidade de observação de nós mesmas, dos eventos, das nossas respostas em relação a eles. O tempo pode ser um grande mestre, na medida em que nos coloca frente a frente com a vida em suas inúmeras faces, mas tudo depende da disponibilidade interna de aprendizado de cada uma de nós.

Se pudermos desenvolver uma postura de humildade frente a este vasto Universo, no sentido de nos colocarmos como eternas aprendizes dos mistérios da vida, teremos muito mais chances de compreender a natureza humana e tudo o que está a ela relacionado. Essa compreensão está ligada à esfera intuitiva, uma vez que entender racionalmente alguma questão está longe de significar elaboração interna; para tanto precisamos de um insight, aquele click que faz com que tudo se encaixe em nós como um quebra cabeças perfeito.

De insight em insight construímos uma percepção dos processos, que nos auxilia a navegar pelas águas das emoções sem naufragar. De vez em quando tomamos “um caldo”, e nem poderia ser diferente, pois continuamos aprendizes, mas já com alguma expertise que nos permite por a cabeça para fora e respirar.

Já temos algum conhecimento dos ventos do tempo, somos capazes de discriminar que no olho do furacão a atitude possível é aquietar-se e abrigar-se, ou seja, saber esperar com paciência que o furacão passe para depois colocar cada coisa em seu devido lugar. O aprendizado nos torna aptas a avaliar as diferentes intensidades de força, e fazer escolhas apropriadas que não apenas nos livre dos riscos desnecessários, como também nos permita desenvolver estratégias para termos sucesso no que desejamos empreender.

Talvez o amadurecimento esteja mais vinculado a escolhas do que a impulsos, a gestar ideias e planos de como realizá-las, no lugar de sair fazendo qualquer coisa de qualquer jeito. Qualquer coisa já não serve mais, há um refinamento dos paladares pela vida. Não há interesse em qualquer filme, qualquer livro, qualquer pessoa. As luzes do mundo interno se acendem, parece que é um tempo propício para nos aproximarmos da nossa essência, e ela se torna a referencia para as escolhas.

Isso não significa que a maturidade seja melhor que a juventude, ou vice-versa. Não dá para dizer que a primavera é melhor que o outono, ou o inverno pior que o verão. Cada estação do ano e da vida tem seu propósito e seu encanto, e todas são necessárias para que a natureza se expresse em toda sua beleza e exuberância.

Que possamos honrar a nós mesmas em cada uma de nossas estações, aproveitar o que elas têm de melhor e trabalhar para que possamos sempre crescer e aprender, mesmo que isso signifique deixar cair as folhas mortas, deixar ir o que não agrega mais, para poder mais pra frente florescer de novo, e sempre!

Maturidade e mudanças

Segundo o IBGE a expectativa de vida da população aumentou 41,7 anos em pouco mais de um século. Em 1900 a expectativa era de 33,7 anos. Ou seja, houve um tempo que era esperado morrer por volta dos 33 anos!!

  • Com o passar dos anos esse número foi subindo:
  • em 1970 havia crescido para 52,6 anos;
  • em 1980, a probabilidade era viver cerca de 62,7 anos;
  • em 2014 já estávamos com uma expectativa de vida de 75,4 anos, e ela não para de crescer.

Talvez esses números possam justificar porque a maioria das pessoas fazia suas escolhas profissionais e afetivas na juventude, e com elas permaneciam até a velhice. A velhice chegava rápido, era o tempo de engrenar na profissão, casar (ou não), ter filhos, vê-los crescerem e terem seus próprios filhos, e morrer. Mudanças significativas no meio do caminho pareciam ousadas, e, via de regra, só aconteciam perante o imprevisto. Era comum as mulheres fecharem os olhos para as traições do marido e ficarem casadas até que a morte os separasse. Também era comum homens insatisfeitos com suas escolhas profissionais e mesmo assim, aposentarem-se na mesma empresa em que começaram a trabalhar.

Felizmente vivemos em outros tempos, demoramos para envelhecer, e não apenas porque vivemos mais, mas principalmente porque vivemos diferente. Mesmo assim precisamos tomar muito cuidado para não repetirmos o comportamento dos nossos antepassados, e não nos acomodarmos porque já estamos nos 50. Ainda vejo, tanto no consultório quanto na vida, mulheres insatisfeitas com suas escolhas pregressas e que sentem-se “velhas” demais para mudar, e tenho que tomar esse cuidado comigo também, afinal já aprendemos a pilotar esse modo de viver, e já nos acostumamos com ele.

Nada melhor do que este momento de experiências acumuladas para revisar a própria vida, e buscar novas aspirações para que nosso coração bata com entusiasmo através dos muitos anos que vislumbramos à frente. Somos mulheres inteiras, trazemos em nós vasta bagagem de conhecimentos, percepções, emoções e aprendizados que foram conquistados ao longo desta jornada. Trazemos também coragem e determinação por tudo que superamos, resiliência pelos fracassos e frustrações, e sonhos pela menina que habita em cada uma de nós.

Fizemos escolhas, vivemos, mas quantas delas ainda valem, e quantas já perderam o prazo de validade? Toda experiência valeu a pena, nada é desperdiçado no Universo, nada é jogado fora se tivermos a sabedoria de transformar nossas vivências em experiências de crescimento e aprendizado. Mas está na hora de revisar e escolher tudo de novo. Certamente algumas escolhas seguem as mesmas, e ótimo se não caducaram… mas outras talvez precisem ser abandonadas, dadas por encerrado, não porque desistimos, mas porque não têm mais significado.

Manter-se jovem apesar da idade é resultado de cuidados com o corpo, a mente e o espírito. O sonho, como já escrevi em outra postagem, é o fio condutor da vida. Sonhar é reinventar-se, dar rumo novo e fresco aos passos que iremos fazer. É colorir o que já está em branco e preto, substituir pelo que tem apelo e sentido à nossa alma.

A culpa nossa de cada dia

Não sei se hoje escolhi um tema pesado ou se foi ele que me escolheu, o fato é que deu vontade de refletir sobre o significado dessa palavra tão pequena e tão complexa que é “culpa”. Às vezes acredito que esse é o sentimento (se é que podemos chamá-la assim) que mais está presente em nossa vida, desde sempre e até sabe-se Deus quando. Mais do que amor, saudades, raiva, tristeza, alegria, ou, pelo menos, mais intensa. Porque aquilo que sentimos nas mais diversas situações da vida parece vir sempre acompanhado, de perto ou de longe, por uma sensação de culpa.

Eu estudei em colégio católico, entrei para fazer o Pré-Primário por volta dos seis anos. Lembro que desde o inicio tínhamos aula de religião, e aprendi logo cedo a ter medo de Deus… Na época de preparação para a Primeira Comunhão tínhamos que listar nossos pecados e arrepender-nos por tê-los cometido, afinal o arrependimento era o caminho que nos levaria ao perdão e à isenção da culpa. Nós, crianças ainda no final do primeiro septênio, já carregávamos a culpa dos pecados que semanalmente tínhamos que confessar ao padre que nos aguardava na capela do colégio. Ficávamos em fila esperando a nossa vez, e o meu desassossego beirava o desespero. Procurava na memória recrutar os pecados da semana, mas eles eram difíceis de serem achados. Eu era aluna de notas altas, adorava estudar, não tinha como garimpar culpa aí… também era obediente, muito mais por medo do que por índole, não respondia aos meus pais nem à professora, rezava todas as noites assim como fazia a lição de casa sem precisar que minha mãe mandasse, então a sensação era de que eu não tinha o que confessar! Me arrepender do que?…

Nesse ponto batia a culpa; como assim, eu não tinha pecados para confessar??? Que criança horrível eu era por achar que não pecava!! Devia ser orgulho, ou soberba, ou vaidade, um pecado pior que o outro, e de alguém que não conseguia elencar os pecados eu me transformava em pecadora mor, para deleite do meu sádico sentimento de culpa e alívio do padre que tinha como me mandar rezar seis Pai Nossos e seis Ave Marias. E mesmo sendo boa filha e boa aluna já se enraizava em mim a vivência da culpa.

E não deve ter sido muito diferente com vocês, independente de terem estudado em colégio religioso ou não, de terem religião ou não, a culpa permeou a nossa geração, permeia a cultura, reside no inconsciente coletivo, é o algoz dos seres humanos e especialmente de nós mulheres. Passeia livremente na escala das medidas, vai desde a manifestação do desejo sexual até o arroz que ficou com gosto de queimado por ter grudado no fundo da panela. Transita no abandono que sentimos ter feito, seja em relação aos filhos em função do trabalho, seja em relação à carreira profissional em função dos filhos.

Aparece no meio da noite quando acordamos sobressaltadas, culpadas pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer. Nos encara na balança, quando o peso constatado é muito maior do que o pretendido, no ginecologista quando nos sentimos acusadas de irresponsáveis por furarmos a rotina dos exames de rotina… Ela, a culpa, também senta-se ao nosso lado no café da manhã quando nos damos conta que acabou a manteiga e o requeijão, e que não há o que passar no pão.

E pega ainda mais pesado quando percebemos que largamos pelo caminho sonhos, desejos, aspirações, realizações, loucuras não cometidas, prazeres adiados.

A esta altura do baile, já cinquentinhas ou cinquentonas, está mais do que na hora de fazer uma troca e largar a culpa pelo caminho, essa mala sem alça, esse peso que atrapalha nosso caminhar. Abandoná-la não é fácil, afinal ela foi nossa companheira inseparável, mas quer saber? Antes só do que mal acompanhada!

Que possamos reinventar a vida sem o sentimento de culpa, que possamos trocá-lo pela consciência da responsabilidade, das escolhas e suas consequências, do que é possível em determinado momento e do que é preciso deixar para depois.

Que a brisa suave sopre sobre nosso rosto, nosso corpo, nossa alma, e que nossa jornada, daqui para a frente, seja marcada pela leveza de quem já se desapegou do peso desnecessário de carregar!

Dia de Poesia

Affonso Romano é mineiro, escritor, poeta, e na década de 60 participou do movimento de vanguarda literária. É autor do livro “A Mulher Madura”, de onde foi extraído o texto abaixo.

O olho da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

(15.9.85) Affonso Romano de Sant’Anna

O Outono e nós

Sou apaixonada pelo Outono, para mim é a estação do equilíbrio. Nele há de tudo um pouco: luz, calor, frio, vento, brisa, chuvas, todos os elementos se alternam e partilham o tempo e o espaço numa dança harmoniosa e ritmada, como bailarinos sobre um palco. O céu de Outono desfila cores únicas, com nuances e tons pouco vistos em outras estações; o jogo entre luz e sombras é discretamente sedutor. Ele não possui o colorido da Primavera, a intensidade do Verão, a frieza do Inverno. Mais parece um almágama, uma fusão perfeita dos elementos que tecem a trama da vida e da natureza. Não é a toa que o correlacionam com a maturidade. Nós, mulheres aos 50, somos outonais.

Foi-se a necessidade abusiva de marcar território, de precisar pertencer a todo e qualquer círculo para poder sentir-se aceita; de exagerar na aparência, de abrir mão de viver certos prazeres porque o cabelo não está impecável, as unhas não estão feitas. Foi-se a necessidade de “primaverar” todo o tempo, de parecer sempre radiante e florida. Também não há mais aquela intensidade que nos queima por dentro, a ansiedade de beber a vida num único gole, como se não houvesse depois. Talvez tenhamos aprendido a manusear melhor o tempo, transformá-lo em um aliado. Muito embora ele tenha trazido a modificação do nosso corpo e acrescentado marcas que não tínhamos, esse mesmo tempo nos permitiu experimentar tantas coisas diferentes e aprender com elas, que pudemos mudar a maneira de compreender o mundo por estarmos mais próximas de compreender a nós mesmas. A chama interna continua a nos aquecer, os sonhos prosseguem sonhados, mas agora entendemos que é preciso respirar entre um movimento e outro. É preciso dar tempo ao tempo para que a vida flua no seu próprio ritmo e velocidade, e não naquele que tentamos impor.

Somos discretamente sedutoras, e a sedução exercida envolve o olhar que não se acanha em penetrar nos olhos do outro; envolve uma certa serenidade que foi a duras penas conquistada; um rasgo de sabedoria de quem já correu várias maratonas e discrimina um pouco melhor o que vale ou não vale ser conquistado. Envolve um fogo que aquece mais do que queima, e é alimentado pela curiosidade, pelas ideias, pelo aprendizado, pelo desejo de estar melhor consigo mesma e de ser alguém melhor para o outro.

Assim como no Outono as árvores soltam as folhas amareladas, também nós estamos aprendendo a deixar ir o que não agrega mais, nos permitir desapegar do que já foi desgastado pelo tempo e perdeu o viço e a força, e isso vale tanto para pessoas como para conceitos, fórmulas, maneiras de estar no mundo. Sabemos que ficamos desnudas, às vezes esvaziadas, mas esperamos florir novamente assim que o Inverno passar. Talvez essa seja a mais humana das estações, e é preciso sensibilidade para percebê-la. Talvez estejamos em um momento onde seja possível nos aproximarmos mais do humano e do divino que habita em nós, e conciliar essas forças para que, amalgamadas, nos deem abrigo para quando chegar o inverno.