Mulheres maduras

Nós, ditas mulheres maduras, já vivenciamos por meio século, um montante de experiências e aventuras das mais variadas matizes. E tudo que vivemos está registrado em nós, tanto no corpo físico quanto na nossa alma. Somos criaturas pulsantes, buscadoras, corajosas, curiosas. Já fomos mais intempestivas do que somos agora, já nos deixamos inundar pela enxurrada de emoções, já nos deixamos cortar e florescemos novamente. Sabemos o sabor da alegria e também da tristeza, o doce e o amargo, temos aprendido a navegar nas cheias e nas vazantes. Somos seres sensíveis e caminhamos pela vida à luz do sol e à sombra da lua, desejamos compreender a nós mesmas e encontrar o que nos complementa. Já recebemos nossos filhos e, de certa maneira, já os deixamos ir. Fomos filhas e nos tornamos mães de nossos pais. De cuidadas, passamos a cuidadoras. Sabemos nos virar na cozinha, arrumar a mesa, receber os amigos, nos tornamos profissionais em busca de realização e reconhecimento. Também sabemos olhar o céu e nos comunicarmos com as estrelas. Entendemos que a vida é cíclica, uma roda gigante sem começo nem fim, e tentamos desfrutar da subida e nos manter equilibradas nas descidas.

Continuamos tendo sonhos e medos, protegendo e querendo proteção, alimentando certezas e acalentando dúvidas. Tudo o que fomos permanece em nós, como tintas sobre tela. Com o passar dos anos algumas ficam esmaecidas e outras continuam vívidas, mas nada se apaga no ser atemporal que em nós habita. Somos amadas e amantes, e o tempo nos ensina a necessidade de aproximação com a natureza, uma vez que reconhecemos que fazemos parte dela. O som da chuva e o cheiro da terra nos acalmam, precisamos do mar, das montanhas, do azul e do verde. O vermelho do fogo também nos atrai, e com ele aprendemos a permanecer, a manter acesa a labareda do desejo. Desejo pela vida, por novos trajetos, por percursos ainda a descobrir. Desejo de continuar e viver intensamente cada novo dia, cada nova noite.

Somos assim, nada nos define, nem poderia, porque trocamos de pele sempre, metamorfoses ambulantes. Sabe aquela velha opinião formada sobre tudo? Não temos, se é que um dia tivemos. Compreendemos que sabemos quase nada a respeito desse todo complexo e inatingível. Mas caminhamos, mantemos a marcha, como quem segue por uma estrada cuja paisagem sempre se modifica. Sabe-se lá onde essa estrada vai dar, mas pouco importa. O que importa é o caminhar.

Mudanças de paradigma: beleza x juventude

Isabella Rossellini, atriz e modelo, filha da grande Ingrid Bergman, herdou da mãe o talento e a beleza, e sempre apareceu na mídia através dos filmes e campanhas que participou, sendo que uma das mais importantes foi para a famosa marca de cosméticos francesa Lancôme. Aos 42 anos foi convidada a se retirar, pois a empresa entendeu que ela já estava “velha demais”, e seu rosto já não representava o sonho de beleza e juventude das mulheres. E passados 23 anos desse momento, ela já com 65 anos de idade, é novamente convidada a estrelar campanhas para a Lancôme. Provavelmente isso tem relação com o fato de que quando essa proposta foi feita, a CEO da Lancôme era uma mulher, Françoise Lehmann, que entendeu que as mulheres mais velhas sentem-se excluídas, rejeitadas, e que o conceito de beleza tem que se descolar do conceito de juventude.

Desde tempos a se perder de vista o conceito de beleza ficou circunscrito à idade da mulher, e beleza significa ser ou parecer jovem. Assim foi definido e a juventude transformou-se em referência de beleza feminina, uma vez que para os homens a regra é outra. Homens maduros, grisalhos, continuam vistos como charmosos e interessantes, e continuam alvo de admiração e desejo, se mantém atraentes e valorizados pelas mulheres. Ou seja, os homens podem envelhecer e continuarem bonitos, nós não!

Finalmente aparece uma luz no fim do túnel da ignorância, do preconceito e da ditadura das crenças e formatações que a sociedade nos impinge e que todas nós aceitamos. Podemos envelhecer sim, e podemos continuar bonitas, atraentes e valorizadas. É preciso quebrar com todos os conceitos engessados, dar a eles vida nova e flexibilidade. A beleza é muito mais abrangente do que estamos acostumadas a perceber, e é diferente em cada fase da vida. A criança é linda, a jovem é linda, a mulher madura é linda, cada qual sendo a expressão daquele momento da vida. Que estação é a mais bonita? Não há como responder, cada uma tem seus encantos, e em cada uma há elementos que nos atraem.

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Sejamos mais generosas conosco, vamos nos permitir assumir a beleza da maturidade com todas as suas nuances e seus tons. Quer saber um jeito de permanecer bonita? Seja feliz! Não é a juventude e a beleza que caminham juntas, mas sim a felicidade e a beleza. Quando estamos felizes irradiamos a beleza de todas as estações….

Assista aqui ao vídeo de Isabella Rossellini

Aproveite a vida

Mês de março. Já.

Como vivi esses dois primeiros meses do ano? Foram dias em que me senti viva ou apenas repeti o mesmo dia quase 60 vezes?

E os meus mais de 50 anos? Foram anos interessantes, ou me limitei a reeditar um roteiro que havia sido escrito muito antes da minha chegada a este planeta?

Essas são perguntas que merecem ser respondidas honestamente. À medida em que o tempo passa e que avançamos nos anos, elas se tornam ainda mais primordiais. Afinal, estamos na contagem regressiva, certo? E não digo isso com amargura ou com intenção de assustar. Em algum momento, cada um de nós irá embora. Não há novidade nisso. Assim sendo, esse questionamento é essencial: estou aproveitando meus dias, minhas horas, meus minutos, cada instante?

Antes de mais nada, o que significa “aproveitar”? Pois bem, antes, para mim, essa palavra tinha a conotação de me divertir, dançar, rir, estar em companhia agradável. É claro que há momentos especialíssimos na vida, viagens, amor, vivências variadas. Mas, hoje, acho que aproveitar não se limita à diversão. A prova é que estamos cercados de meios para nos distrair: jogos eletrônicos, filmes, séries. É muito simples apertar um botão e desligar o mundo. Mas, isso é estar vivo? Esse estado de conforto aparente diante de uma tela pode abrigar um profundo vazio.

Já me senti viva estudando, dançando sozinha na minha sala, conversando com uma pessoa querida, assistindo aula sobre um tema que me fascinava, vendo um documentário que me fez rever conceitos. E já me senti amortecida no meio de uma festa, por assim dizer, “maravilhosa”. Não é apenas o exterior que conta, o maravilhoso está dentro de nós.

Às vezes, a vida que se apresenta é desafiadora. É assim. O que fazer? Onde fica o “aproveitar” quando há alguém doente na família, quando falta dinheiro, quando algo desconcertante ocorre? Nesse momento, o aproveitar se transforma em aprendizado. Sem fugir e sem desesperar, diante do inevitável, a gente procura absorver toda a lição contida nele. E assim, “aproveita a oportunidade” para crescer.

Gosto da frase de Aldous Huxley:

“Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece.”

 

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O que a vida quer da gente é coragem

Há dias em que a gente acorda, se olha no espelho e se acha bonita. Vai para o chuveiro, arrisca cantarolar a música preferida. Passa o sabonete pelo corpo como se estivesse desenhando arabescos sobre um papel. Sai do banho, abre o guarda roupas e escolhe aquele vestido lindo, ou aquela calça maravilhosa que cai tão bem. Na prateleira dos perfumes surge uma pequena dúvida sobre qual escolher, mas logo percebe-se que é o dia do queridinho, daquele que custou caro mas que vale cada centavo gasto. Depois vem os acessórios, a maquilagem, os sapatos e mais uma olhada no espelho. Uau menina, você está linda!!! De verdade, nem parece que passou dos 50!

Sai de casa, e logo antes da primeira esquina olha para o céu; não… que cor é essa?? Ele, o céu, parece que também caprichou no visual, vestiu-se de um azul que há tempos não se via. E o sol então? Brilha feito vestido de festa. Os semáforos estão verdes, o play list delicioso de se ouvir, o trânsito flui, nenhuma cortada ou xingamento. Bem, talvez aquele cara do carro branco tenha dito alguma coisa, mas quem liga? Coitado, deve estar estressado. E assim segue o dia. A agenda cheia, a correria de sempre, a lista do mercado que tem que ser encaixado no horário do almoço. Mas tudo bem, é até bom tomar um suco detox e comer uma quiche na padaria mais próxima, para equilibrar os excessos que já aconteceram ou irão acontecer. E não é que deu tempo de fazer tudo? Deu até para ligar para a amiga, morrer de rir da conversa, ir para a academia na maior disposição e terminar o dia em família, numa boa, sem falar de contas, filhos, sem reclamar da bagunça; pensando bem, será que tinha bagunça?

Há dias em que a gente acorda, se olha no espelho e se acha horrorosa. Que preguiça de tomar banho! A água não esquenta direito, o sabonete, que está no finzinho, cai não sei quantas vezes no chão do box, que chato! Aí você sai, abre o guarda roupas e não encontra uma roupa sequer razoável de se vestir. Tem aquele vestido que está apertado e marca os culotes, tem aquela calça larga que mais parece um saco, e não tem uma blusa bem passada. Na prateleira dos perfumes, aquele que foi ganho é o escolhido. O vidro está cheio, afinal, o aroma é cítrico até não mais poder, mas pelo menos você não pagou por ele. De acessórios, só o relógio, e maquilagem nem pensar, um batonzinho passado a esmo no elevador e está bom demais.

Antes da primeira esquina começa a chover, justo hoje, o trânsito vai ficar infernal. O trânsito já está infernal, e não é que aquele infeliz, aquele do carro branco, deu uma cortada e ainda xingou? Ah, mas levou de volta, com gesto e tudo, quem ele pensa que é? Já não basta o tanto de coisas para fazer hoje? Não vai dar tempo nem de almoçar, afinal ainda tem o mercado para encaixar. Quer saber? Hoje não se atende telefone, vontade zero de falar com quem quer que seja. Academia nem pensar, ir pra casa direto porque, com certeza, ainda vai ter aquela bagunça para arrumar. Mas de hoje não passa aquela conversa com os filhos, nunca vi gente tão folgada! Estão pensando que eu sou o quê?

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois inquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Sábio Guimarães Rosa.

A favor da idade

Nesta sociedade de consumo imediato, pronto, de modinhas, preceitos e preconceitos, a passagem pela década dos 50 anos causa um friozinho na espinha, para dizer o mínimo. É aí que cai a ficha de que estamos envelhecendo.

Na verdade, para ser literal, envelhecemos a cada dia desde o nascimento, na medida em que nos distanciamos do momento da chegada e nos aproximamos do momento da partida. Mas, segundo a ciência, o corpo começa a envelhecer entre os 25 e 30 anos, e acentua esse processo a partir dos 35.

Agora, a ficha cai pra valer por volta dos 50, e sabem por que? Como bem escreveu Rubem Alves em uma das suas deliciosas crônicas, nos damos conta que há, na bacia, muito menos jabuticabas para comer em relação as que já foram comidas. Como o bicho homem tem o hábito de pensar na vida levando em conta o tempo, percebemos que o já vivido está em vantagem quantitativa em relação ao tempo que temos para viver. E aí queridos, o bicho pega.

Se ficarmos sob o efeito desse impacto, não só permitiremos que o envelhecimento instale-se em nós, como daremos até um empurrãozinho para que seja mais rápido. Na cultura de aparências e vitrines é essa a regra do jogo. O que poucos dizem, e acho que vale a pena dizer, é que se estivermos dispostos e abertos ao aprendizado, nadaremos de braçada nessa fase da vida.

O imperativo de ficar na montanha russa emocional já não existe mais, e se aí permanecermos, entre subidas íngremes e descidas alucinantes, é por escolha. Temos a bagagem suficiente que nos autoriza internamente a transitar pela vida de outras maneiras.

Os prazeres também não são mais servidos em pratos que carecem de consumo imediato e apressado. Como um bom vinho, podem ser sorvidos com calma, degustados com refinamentos que só a passagem do tempo nos dá a oportunidade de adquirir.

O valor que damos para as coisas também sofre mudanças. Sentar em uma mesa para um almoço rápido com as amigas e morrer de rir das histórias contadas tem pontuação alta. Chorar com elas ou por elas, também.

Olhar para os filhos e vê-los capazes de caminhar com os próprios pés em direção à vida que sonham ter, estoura o limite da tabela. Se perceber mais segura e mais serena, apta a fazer escolhas mais honestas, tá valendo muito. Permanecer em certas situações nas quais não gostaríamos de estar, mas que se faz preciso no momento, e ter plena consciência disso, vale 10!

Estão vendo? Poderia ficar aqui enumerando uma lista imensa de coisas, mas que cada um faça a sua e descubra “a dor e a delícia de ser o que é”, e a dor menor, perto da delícia maior de podermos estar aqui vivas e plenas, mesmo que a pele não esteja mais tão esticada.