Do luto ao renascimento.

 

 

Durante a primeira metade da vida contamos com um número grande de pessoas da família com quem temos vínculos afetivos muito próximos e significativos e como consequência  vivemos inseridos em uma estrutura que nos ampara e protege. Na medida em que os anos passam vamos perdendo aqueles que nos precederam: nossos avós, tios avós, nossos pais e seus irmãos e irmãs e de repente nos damos conta que nos tornamos referência para os filhos, os sobrinhos, depois os netos que vieram ou virão. É nesse momento que a ficha começa a cair e em plena idade adulta nos deparamos com um sentimento de orfandade. Todos aqueles em quem confiávamos e em quem projetávamos segurança e acolhimento não estão mais aqui fisicamente presentes.

 

 

E agora? É como se perdêssemos o chão e um processo de luto deflagra-se em nós; vocês já sentiram-se assim? Não é um estado de tristeza permanente, não é desespero nem incapacidade de gerir a própria vida, mas é a constatação dolorosa de que tudo e todos que imaginávamos “eternos” fazem parte de um ciclo que já findou, que agora estamos em outro momento onde precisamos aprender a conviver com a saudade, a falta, as lembranças felizes que por vezes tornam-se pesarosas pela constatação da impossibilidade de revive-las. Essa vivência vem acompanhada de um tanto de solidão, uma vez que muitas das relações que tivemos até aqui deixam de existir.

 

 

Esse processo de elaboração de tantas perdas e mudanças requer um período de intenso trabalho interior, de um recolhimento que nos possibilite buscar dentro de nós o exercício desse papel de pai e mãe de si mesmo. De encontrar a segurança, o amparo, a proteção e a criatividade para nos reinventarmos, de buscar a chama de vida que possa incendiar o desejo de inaugurar outra fase, de experimentar possibilidades diferentes, de fazer novas escolhas e aprender a sonhar outros sonhos.

 

 

Mudamos não só na aparência mas principalmente na maneira de entender e sentir nossa vida, assim como nossas prioridades e expectativas também mudaram. O que eu quero viver daqui para a frente? Como vou conseguir me organizar para alcançar esse objetivo? O que tenho que colocar na minha vida que está faltando e do que tenho que abrir mão porque está sobrando? Como fazer diferente do que sempre fiz?

A necessidade do auto conhecimento cresce afinal vou ter  que contar comigo e buscar em mim as novas ferramentas para essa nova etapa; como posso ser confiável se eu não souber quem sou? Que imagens eu construí a meu respeito e quais delas são verdadeiras? O que tanto carrego que nem me pertence??

 

 

Engana-se quem pensa que tornar-se alguém mais maduro pressupõe a diminuição do ritmo de trabalho. Talvez o ritmo que diminua é o que está automatizado, as tarefas e deveres externos. Por outro lado há acréscimo do trabalho interior, há o confronto com aspectos que nos amedrontam simultaneamente ao descobrimento de outros muito interessantes que sequer desconfiávamos existirem. O luto e o nascimento convivem lado a lado, a dor e a alegria, os pares de opostos que buscam integração.

Muito trabalho a ser feito, pouco ou nenhum tempo a se perder, pois o tempo tornou-se instrumento valioso de vida. Precisamos renascer, recriar a vida através de novas escolhas, novos interesses, novas direções. A estagnação não é uma possibilidade, a música continua tocando e nos convida a prosseguir com os movimentos para que possamos criar outras coreografias. Nem ouse perder o ritmo e a leveza, merecemos estar aqui e desfrutar com prazer e alegria desta nova estação, a maturidade. O trabalho continua, a necessidade de investimento também. Sabe tudo que foi postergado para ser vivido depois? Pois bem, o depois chegou e transformou-se no agora. Vamos exorcizar as mágoas, frustrações, culpas e arrependimentos, vamos finalmente apostar na felicidade, combinado?

 

Você já fez terapia?

 

 

Sou psicóloga, psicoterapeuta e minha atuação clínica soma trinta anos. Durante todo esse tempo exercendo minha função ( e vocação ) tive a oportunidade e o privilégio de escavar junto com meus pacientes fragmentos perdidos no inconsciente, peças que faltavam para compor no aqui e agora um esboço mais claro de cada um deles, integrar aspectos dissociados que se perderam ao longo da trajetória de vida. A psicoterapia pode ser comparada, no aspecto simbólico, ao trabalho de patchwork, onde retalhos e recortes são reorganizados e costurados para formar um tecido único, marcado pela diversidade das partes que o constituem, mas tão harmoniosamente rearranjados que refletem uma beleza única.

 

 

Para se chegar ao resultado final de qualquer processo é necessário  trabalho, investimento de tempo e energia, constância, disciplina , capacidade de superar obstáculos e de lidar com as dores intrínsecas ao crescimento. Sim, crescer suscita dores das mais variadas matizes porque nos arranca da zona de conforto e nos faz caminhar em direção a horizontes mais largos. Crescer implica em abandonar o papel de vítima e responsabilizar-se por suas escolhas, em ligar os pontos entre causas e consequências, dar-se conta das próprias limitações e perdoar-se, desgarrar-se do apego à dor e prosseguir. Esse desapego só é possível depois da decisão de revisitarmos nossas dores, nominá-las, compreende-las e aceitá-las como parte importante do processo.

 

 

Mas vivemos em tempos estranhos onde a dor maior talvez seja a de não estarmos felizes e radiantes mas precisarmos parecer que estamos, para nós mesmos e para os outros. Se essa é a regra, como eu vou olhar para as minhas dores ? Está doendo? Lá vamos nós para o analgésico, o ansiolítico, a pílula da felicidade, o álcool, o baseado (por que mesmo não foi liberado?), a dissimulação, o faz de conta, o teatro. Vamos para o atalho porque sabemos que na estrada principal teremos que nos deparar com a dor, uma vez que a deixamos lá estacionada.

 

Os atalhos, porém, são labirintos disfarçados de caminhos, nos fazem andar em círculos, nos mantem no mesmo lugar com o agravante da ideia ilusória de que estamos nos movimentando quando, na verdade, estamos repetindo padrões, comportamentos, crenças e medos.

Sabem de uma coisa? A vida é muito curta para tantos subterfúgios, gasta-se um tempo louco para manter essa parafernália toda, tempo de vida que abdicamos por medo de encarar nossos fantasmas e desconstruí-los. Por medo de mudanças, por medo de reconhecer que a rota escolhida não foi a melhor, ou teve um tempo de validade que já venceu e que o roteiro dessa viagem incrível precisa ser refeito.

A psicoterapia é uma porta que se abre, um grande espelho onde podemos nos olhar por inteiro, identificar a luz e a sombra, reconhecer nossas dores e acolhe-las para que não mais ecoem em nossas vidas através de comportamentos erráticos que nos levam a lugares diferentes de onde desejamos chegar. É a possibilidade de vasculhar o baú do inconsciente e olhar para tudo que lá está entulhado, por para fora, tirar o mofo, resignificar.

 

A vida ganha leveza e fluidez quando decidimos fazer esse mergulho para dentro, quando nos aproximamos desse vastíssimo universo interior onde está o registro de nossa história e todos os desdobramentos do que foi vivenciado, onde a ciranda das emoções precisa ganhar ritmo e movimento para que não adoeçamos. Dá trabalho, claro, como qualquer coisa nesta vida; mas é um trabalho cujo resultado é frutífero, rico, abundante, porque nos aproxima de nos tornarmos quem de fato somos!!

Para além do medo.

 

 

Você já parou para observar aonde você vive? Não estou me referindo a um lugar como cidade ou bairro, tão pouco se você mora em casa ou apartamento, se é grande ou pequeno. Na verdade o questionamento refere-se ao cercadinho de crenças que parece delimitar o território interno de nossas percepções, pensamentos e emoções. Raramente colocamos nossa atenção na carga pesada que carregamos  e sobre a qual pautamos a maioria de nossas ações, carga essa constituída de crenças que herdamos da sociedade na qual estamos inseridos e de tantas outras que agregamos ao longo do caminho. Sejam herdadas ou adquiridas, estamos falando de crenças limitantes que cerceiam a liberdade de movimentos no decorrer da vida.

Sabe quando chegamos na praia e escolhemos um lugar para fincar o guarda-sol e a barraca, na faixa de areia entre o mar e a mureta que separa a praia da avenida? Pois é, fazemos algo muito semelhante com a própria vida. Apesar da vastidão desse Universo sem começo nem fim, da diversidade de forças que nele atuam e que o constituem, de todo potencial criador e criativo que trazemos dentro de nós, acabamos por nos acomodar em um cantinho acanhado e murado que nos guardará dos tantos perigos deste mundo (jura?). Ficamos condicionados a um estreito campo de experiências e atrofiamos nossa capacidade de pensar, discriminar, escolher e expandir.

Acabamos por trilhar caminhos conhecidos, repetir modelos e nos conformar com as limitações, como se elas fossem rochas firmemente assentadas sobre o solo, de tal maneira que as vemos como parte de uma paisagem impossível de ser transformada. Sem dúvida cada geração que nasce supera a anterior e dá um passinho a mais no caminho evolutivo, mas o medo restringe e castra o sonho de liberdade de todos nós.

Como seria viver além do medo? Como seria se tivéssemos consciência de todas as crenças que comandam nossos passos e resolvêssemos incendiá-las até se tornarem cinzas que pudessem ser sopradas ao vento? Quem seríamos nós libertos desse ditador implacável??

 

Não sei se um dia a humanidade chegará lá, mas sei que podemos começar essa desconstrução aqui e agora. Questione-se sempre, coloque a atenção em tudo que faz, se observe, faça escolhas independentes, separe o joio do trigo. Será que realmente eu acredito que não posso agir deste ou daquele modo ou será que já me acostumei a pensar assim? Será que isto de fato me coloca em risco ou será que o risco maior é viver nesta clausura na qual me coloquei? Vamos acordar?

Quem acredita que ousar, desafiar e mudar é só para quem é muito jovem está intoxicado de crenças limitantes. Que tal fazer um detox? Que tal desapegar do que é tão antigo que já caducou? Que tal importar-se mais com o que você quer do que com o que os outros vão pensar de você?                             Há vida além do medo, há vida além do arame farpado que nos separa de todas as infinitas possibilidades de nos sentirmos despertos e felizes!!

 

 

Dia de Poesia


Cântico negro

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

Preguiça

 

Um dos sete pecados capitais, familiar a todos nós, mas talvez nem sempre pecado.. Há aquela preguicinha gostosa de acordar pela manhã e fazer uma horinha na cama até arrebanhar suficiente energia para começar o dia. Há também a que vem depois do almoço e que nos enche de vontade de tirar um cochilo, fechar os olhos e dar tempo do organismo fazer a digestão. Há a preguiça dos finais de semana que nos leva a desacelerar o ritmo, não correr para esticar os lençóis depois de levantar ou  arrumar prontamente a cozinha depois de comer , se dar o direito de atirar-se no sofá e lá ficar por tempo indeterminado. E talvez a melhor de todas, a preguiça que aparece nas férias e que nos faz viver a vida em slow motion, declinar da imposição do tempo mensurado pelo relógio e pelo calendário e deixar-se levar pela brisa interna que sopra e determina os movimentos.

Talvez a preguiça que entra na relação dos sete pecados capitais seja aquela que nos leva à procrastinação, que por si própria é pecado que cometemos contra nós mesmos. É quando negligenciamos situações importantes que deveriam ter sido resolvidas ontem, mas que insistimos em empurrar com a barriga nos colocando desta forma em zona de risco. É a preguiça perniciosa que nos faz ficar imobilizados quando o momento pede uma ação, uma mobilização para acolhe-lo e resolve-lo, mesmo que isso represente um esforço de nossa parte, uma necessidade de interromper temporariamente algo que desejamos para fazer o que é preciso. Sabe aquela preguiça de dar um telefonema para um amigo que está precisando, de fazer um favor para alguém que nos pediu, de ter atitudes que promovam o bem estar do outro, que alivie sua dor? Pois é, me parecem todas essas farinha do mesmo saco..

 

 

Ultimamente ando com outro tipo de preguiça que,suponho, não se enquadra nem na primeira categoria  (gostosa) nem na segunda (pecaminosa). É uma preguiça existencial diante de um nesgo de realidade que se apresenta tão igual, tão repetitivo, tão caricato. Preguiça ao ouvir os mesmos discursos e as mesmas promessas; preguiça das queixas sem fim e das críticas sem consistência, das repetições que excluem a possibilidade criativa de reinventar, fazer diferente e fazer a diferença.  Preguiça das pessoas que se colocam deste ou daquele lado e defendem ideias como se o que estivesse no cerne da questão não fossem valores de uma sociedade que adoeceu e se dividiu e que precisa voltar a ser um todo para poder sanar suas feridas e recuperar sua integridade. Preguiça de todas as formas de divisão e de segregação, de tudo ser tratado como se estivesse fora de nós, projetado no outro e nas circunstâncias externas, será mesmo?

 

 

 

Preguiça de mim mesma quando me deixo levar pelos arrastões que vez por outra nos envolvem, quando esqueço que meu centro de força é interno, quando negligencio a conexão com o divino, quando rolo montanha abaixo e me prendo à visão do sopé, tão limitada e limitante. Preguiça quando desisto, quando encontro um monte de justificativas fake  para não me lançar no comando da minha vida, quando me sinto vítima e recolho meus braços como se não os tivesse. Vocês já se sentiram assim? Fala sério, não dá preguiça? Ainda bem que hoje é domingo, dia institucionalizado da preguiça, onde podemos vive-la sem culpa e sem urgência !!