Mamãe, mãe, manhe.

 

Mãe, mãe, mãe. Mãe terra, Terra, Gaia. Mãe solo, raiz, nutrição, caule, estrutura, copa, sombra, bálsamo, alívio, acolhimento. Mãe água, emoção, afeto, sentimento, mãe que rega seus filhos/sementes para germinarem, crescerem, frutificarem. Águas da vida, do pranto, das lágrimas de dor, de medo, de angustia, de emoção, saudade, gratidão, alegria, orgulho. Mãe fogo, arde, explode, queima, aquece, transforma, molda, transmuta, renasce. Mãe ar, éter, respiração, princípio, Maria, Nossa Senhora das Dores, dos Remédios, da Consolação, Desatadora de Nós, Aparecida, de Fátima, do Rosário, da Conceição, Yemanjá.

Mãe antiga, de outros tempos, dona de casa, dona da casa, da cozinha, responsável pela alimentação e educação dos filhos. Mãe que ralhava, que mandava sentar direito, feche as pernas, feche a boca para mastigar, arruma sua cama, onde está seu boletim?  Mãe que punha a mão na testa para medir febre e levava o filho para o banho morno para a temperatura baixar. Mãe dos chás para todas as dores, das poções mágicas, das orações poderosas, dos abraços escassos e do coração quente. Mãe que ensinava filho a rezar, a obedecer, a respeitar. Mãe das certezas incertas, isto é certo, isto é errado. Você não vai, você não pode, eu não quero! E pronto. Mãe diretriz, referência, norte. Frustradora, castradora, provedora e promotora, juíza, advogada dos filhos, mãe leoa. Mãe que conhecia a dureza da vida e nos queria fortes, resilientes, capazes de superar frustrações e prosseguir.

Mãe dos tempos modernos, atuais, mãe multitarefa, atarefada, atordoada. Mãe que somou responsabilidades de se conhecer, de se cuidar, de educar os filhos, de prover a casa com o seu trabalho também, de fazer check up todos os anos, de fazer check in nas reuniões da escola, de fazer social com as outras mães para que seu filho sinta-se mais incluído no grupo. Mãe analisada, mãe das incertezas frente a este mundo louco e mutável, mãe que busca o olhar do filho para poder pressentir o que acontece com ele. Mãe culpada, o livro que eu quero ler, a pesquisa para o trabalho, o cabeleireiro para retocar as luzes, o happy hour com as amigas, a organização da casa, o marido, os filhos. As perguntas que eles fazem e as respostas que não temos, a dificuldade em interditar, colocar os limites, é assim e pronto. A busca atrapalhada pelo afeto do filho, o medo da rejeição, a necessidade de ser próxima, de estar próxima, a super proteção e o abandono, o cansaço, o desejo insaciável de que ele, o filho, tenha o que eu mãe não tive. As férias, as viagens que queremos fazer juntos, o cinema com a pipoca, a praia com a mochila cheia de protetor solar. Os perigos do sol, da água contaminada, imprópria para banho. Cuidado para não se perder na praia, cuidado para não se perder na vida…

Os filhos crescidos, ou quase isso, essa adolescência que não termina nunca, cursos e mais cursos, a namorada (namorado) que vem jantar em casa e fica para dormir…oi?? Como assim? É mãe, agora é assim. Café da manhã do dia seguinte, todos à mesa, o levantar-se com aquela camisola velha e gostosa e o cabelo despenteado ficou para trás, esquece. Mas também tem a convivência, o participar mais, tudo fica mais claro e exposto, que bom, ninguém precisa fingir que não acontece.

Mãe é atemporal e essa divisão é só para brincar, mãe é o modelo velho e o novo misturados, tudo junto. Mãe é espera, expectativa, cuidado, conflito, cansaço,erros e acertos. É eterno aprendizado de paciência, doação, perdão, de aceitação do filho que cresceu e fez escolhas diferentes das que ela havia idealizado. É deixar-se encantar por cada conquista, é ser conquistada a cada sorriso.

 

Sou grata à minha mãe por tudo que ela me deu e por tudo que me negou, porque não tinha, não podia, não sabia. O que dela recebi me deu chão, estrutura, eixo, possibilidade afetiva, pertencimento. O que não pude ter me levou a criar asas e buscar o que me faltou, o que eu queria, com a certeza de que se alguma coisa não funcionasse, se eu caísse, me machucasse, teria para onde voltar.

 

Sou grata aos meus dois filhos que me fizeram mãe, que me ensinam todos os dias os incontáveis caminhos do amor, que instigam para que eu me torne uma pessoa melhor, que me inspiram a lutar contra minhas limitações e superá-las, que acendem minha vontade de viver muito e um dia poder ver os netos correndo pela sala de casa.

A todas as mães e a todos os filhos, um dia feliz! Independente de estarem fisicamente próximos ou distantes, independente de estarem no mesmo plano ou em planos diferentes, vale lembrar que os grandes amores se mantem eternamente conectados por fios invisíveis e eternos, muito além de qualquer tempo ou espaço.

O predador

Temos por hábito apontar, a nós mesmos, todas as pessoas que de alguma maneira nos prejudicaram e às quais debitamos a responsabilidade pela nossa infelicidade – e somos capazes de fazer uma lista imensa; aliás, quanto mais vivemos, mais essa lista tem potencial para aumentar. Temos na ponta da língua o que cada uma delas fez, e poderíamos até agrupá-las por “temas”: as que não nos amaram o suficiente, as que negaram afeto, as que não reconheceram nosso valor, as que nos julgaram e criticaram, as que nos roubaram, nos enganaram, as que nos traíram, as que nos abandonaram… Essa lista não termina aí, poderia continuar e preencher várias linhas.

Ok, muita coisa aconteceu ao longo desses anos; de fato não obtivemos das relações o que delas esperávamos e muitas vezes “morremos na praia”. Fomos atravessados por muitas dores e vamos combinar que a dor da rejeição é uma das mais contundentes. Essa dor é feito agulha grossa e comprida que parece atravessar o coração e abrir um rombo difícil de cicatrizar.

Felizmente nós, seres humanos, temos um arsenal interno de recursos que nos permite não apenas sobreviver mas também superar as incontáveis frustrações, assim como contamos com recursos externos para recompor o tecido esgarçado, como terapia, grupos de auto ajuda, trabalhos focados na reforma íntima, desenvolvimento da consciência e da espiritualidade, amigos que escolhemos e com os quais podemos ter trocas mais assertivas.

O que temos mais dificuldade em perceber (e aí mora o perigo) é que há dentro de nós um predador, tão ou mais perigoso quanto esses que nomeamos. É o grande sabotador interno, ágil, esperto, dotado de grande versatilidade e capaz de se camuflar e esconder-se em meio a  pensamentos tortuosos e emoções desordenadas. É esse aspecto da psique que nos leva, por exemplo, a desenvolver apego aos algozes externos e perpetuá-los em nós, quase que nos mantendo eternos prisioneiros dos traumas e carências.

Entrar no “quarto escuro” do nosso emocional e buscar por esse predador é sofrido, ameaçador, mas fundamental. Poder reconhecer sua existência é o primeiro passo, pois negá-lo só aumenta sua influência sobre nós. Ele nada mais é que um aspecto psíquico destrutivo, a sombra da qual tanto ouve-se falar; quanto menos a reconhecemos mais ela nos encobre. Vem das sombras que trazemos dentro aquela voz impertinente que nos diz que não somos capazes, que não vamos conseguir, que o mundo todo está contra nós, que não podemos, não devemos, não temos o direito.

Assim como também vem de lá o medo que nos paralisa e nos impede de fazer diferente, de fazer outras escolhas que nos permitiriam sair da ladainha repetitiva na qual as vidas tantas vezes se transformam. O senso exacerbado de responsabilidade que pesa sobre nossas costas dificultando o movimento, os sentimentos de culpa por nossos fracassos reais e imaginários, a mágoa (má água) que mantemos, a desesperança e descrença, a aposta na “desgraça”.

Sabem de uma coisa? Esse sabotador é muito mais poderoso do que qualquer outro fora de nós, capaz de grandes e contínuos estragos. O mundo é reflexo das nossas crenças, pensamentos, emoções, se desenha a partir do que nele projetamos. Há, claro, dificuldades e pessoas que fazem um ruído danado em nossas vidas, mas a maneira como lidamos com isso é mais determinante do que o fato em si.

Somos responsáveis pela nossa felicidade e nos cabe buscá-la incansavelmente, seria ingênuo colocá-la em mãos alheias. O outro pode sim nos fazer algum mal, mas quem perpetua ou não esse momento somos nós. Reconhecer o predador interno e confrontá-lo, trabalhar para trazê-lo à luz da consciência é investir no bem estar e na felicidade. Mãos à obra!!

Sobre o viver

Segundo a doutrina espírita escolhemos estar aqui encarnados neste momento, assim como escolhemos nossos pais e determinadas situações que enfrentamos no decorrer da vida uma vez que elas proporcionariam o trabalho de certos aspectos da personalidade, que por sua vez contribuem para o processo evolutivo da alma, finalidade maior de cada existência. Podemos ou não acreditar neste postulado, não é esse o ponto.

A questão é que estamos aqui. Todos os dias acordamos dentro deste corpo, dentro de um enredo que é nossa história de vida, ligados às pessoas que compartilham conosco dessa experiência, envolvidos nas atividades que nos propomos a realizar nos campos pessoal e profissional. E assim seguimos desde sempre, desde o nascimento; atravessamos o tempo e seus ciclos, as estações da infância, adolescência, juventude, maturidade e nos encaminhamos para a próxima e última; nela chegaremos um dia com a bagagem repleta de aprendizado, recordações, saudades e gratidão. E tudo isso dividirá espaço com a frustração pelo que não foi vivido, pelo que abandonamos no caminho, pelas dores e mágoas de variadas intensidades…

Assim é o viver, complexo, intenso, enigmático e cíclico. É como se pegássemos o carro e partíssemos para uma estrada; há trechos em que o asfalto está tão liso que parece flutuarmos sobre ele. Há trechos em que o caminho está tão esburacado que não paramos de chacoalhar, chega a doer os ossos do corpo. Há subidas que aceleram o coração porque nos permitem vislumbrar uma paisagem incrível e há descidas que nos enchem de angústia porque parece que estamos despencando e vamos nos estatelar ali adiante.

Felizmente os trechos se alternam e essa é a grande oportunidade de aprendermos um pouco sobre nós mesmos e sobre o viver, esse processo ao mesmo tempo insano e maravilhoso. Nada é para sempre, lembram-se? Como diz a música, “o prá sempre, sempre acaba”. Que tenhamos consciência e coragem para atravessar florestas e desertos; esperteza e equilíbrio para beirar os precipícios sem cair dentro deles; audácia nas subidas e cautela nas descidas. Que possamos nos deixar levar quando os ventos soprarem a favor, e que tenhamos força de prosseguir e resistência quando eles soprarem contra.

Mas que tenhamos todos os dias e noites amor no coração, gratidão por estarmos aqui e fazermos parte deste espetáculo, sabedoria para discriminar quais recursos usar e quando, esperança de que tudo se renove, se reinvente. E alegria, que não nasce ao pé da serra ou no quintal de casa, que não pode ser comprada ou emprestada. Mas que pode ser cultivada por cada um de nós e assim sendo florescerá tanto que poderemos soprá-la sobre as pessoas ao nosso redor, nos tornando co-autores de uma realidade mais colorida e feliz!

Páscoa e o nosso renascimento.

Seja para os católicos ou para os judeus, Páscoa tem sentido de vida nova. Para os primeiros significa que Jesus ressuscitou libertando-se assim da morte três dias após sua crucificação. No judaísmo é a comemoração da libertação do povo hebreu adquirida pelo êxodo do Egito onde viviam como escravos, tornando-se então um povo livre. Em ambas as religiões celebra-se a vida, a superação, a libertação e o renascimento diante de uma nova possibilidade.

O simbolismo desta data me faz pensar sobre nossas vidas aqui neste planeta e em todas as mortes que vivenciamos ao longo da existência. Ciclos terminam, pessoas vão embora ou somos nós quem partimos; ou não partimos e ficamos aprisionados em situações  de escravidão disfarçadas muitas vezes de zona de conforto, de relações estáveis, sejam essas afetivas ou profissionais. Escravos da rotina, da repetição, da roda da fortuna e do azar, das obrigações impostas, dos deveres sem fim, da culpa que pesa nos ombros feito cruz, que arrastamos pela via dolorosa que cada um esboça para si e percorre.

A simbologia da Páscoa sugere que podemos “morrer” e renascer quantas vezes forem necessárias dentro da mesma existência, assim como podemos abandonar o que nos aprisiona e sufoca, partir para outras experiências apesar do medo, do risco, do que  temos que abrir mão ou “perder” para ganhar lá na frente em movimento, liberdade, livre escolha. Para tanto é preciso não só coragem e desapego mas também fé, no sentido de acreditar que a abundância do Universo está disponível para quem busca viver de acordo com o seu coração, para quem se mantém integro e fiel aquilo que acredita ser seu propósito.

Mudar de rota, de trabalho, de casa, de parceiro, mudar de opinião (por que não?). Mudar a percepção, a compreensão, a resposta. Abandonar velhos padrões e hábitos, desenraizar-se, fazer o caminho de volta. Ressuscitar o que permitimos que morresse em nós, sonhar novos sonhos ou reeditar algum sonho antigo que continue valendo, encaminhar-se rumo à terra prometida que nada mais é do que estar no mundo de uma maneira que nos faça feliz.

Feliz Páscoa, feliz despertar, feliz recomeço!!

Que possamos fazer a passagem de uma vida limitante para uma vida onde o céu seja o limite! Onde cada um de nós possa caminhar por onde escolher e sentir-se em casa onde quer que esteja porque está vivendo de acordo com o que é e acredita. Porque está em paz e, portanto, está em casa.

Toda tristeza será perdoada

Não gosto do pessimismo, nem nos outros nem em mim. Sair do presente, antecipar-se aos acontecimentos e fazer previsões sombrias é uma péssima viagem. Também não simpatizo com a ideia de curtir mágoas, desilusões ou qualquer coisa desse tipo, voltar o filme sempre na mesma cena e repetir o sofrimento, reeditar a dor. Isso nos torna prisioneiros do que não deu certo, ou do que consideramos que não deu certo porque a expectativa era outra. Colocar-se na posição da vítima também é um furo n’água uma vez que distorce a percepção, nos isenta da responsabilidade que também temos no desenrolar daquela situação e mais do que isso, divide o mundo entre inocentes e culpados, bons e maus e mergulhamos na armadilha da separatividade, que infelizmente anda muito em moda nos dias de hoje. Não é disso que se trata esta postagem.

Refiro-me à tristeza, aquela tão conhecida emoção que nos toma de assalto mesmo quando tudo parece bem; que entra em casa sem ser convidada e logo encontra um canto para ficar. Que aperta o nosso peito, mareja os olhos, dá um tom acinzentado em tudo sobre o que pousamos o olhar. Ela nos afasta temporariamente do mundo exterior e nos induz a voltar para dentro, a percorrer nossos labirintos, becos, ruelas e buscar pela compreensão e aceitação dos fantasmas que lá se escondem e que fingimos não ver. Mas que nem por isso deixam de nos assustar, costumam nos roubar o sono e os sonhos, e quanto mais os ignoramos mais se fazem presentes.

A tristeza é um aviso e um lembrete de que se faz necessário parar um pouco e cuidar da nossa sombra, traze-la para perto, iluminá-la com a luz da consciência para reintegrá-la no todo que somos. Desta forma não mais ouviremos o choro dos excluídos ou o passo dos fantasmas nos porões do inconsciente, e assim nosso caminhar será mais inteiro.

Que possamos tomar cuidado com a ditadura da felicidade que é imposta diariamente, como se alguém pudesse sentir-se feliz por decreto, como se fosse obrigação estar radiante todos os dias. Parece que entristecer-se é doença que logo precisa ser medicada, ou é frescura de quem não é grato por tudo que tem e a pessoa que está triste muitas vezes carrega vergonha e culpa por sentir-se assim.

Na verdade a tristeza é boa aliada na elaboração de tudo que não digerimos até então e que só deixamos para trás, abandonado, como se fosse possível viver e largar aspectos nossos pelo caminho. É ela que nos faz voltar e recolher essas partes rejeitadas, é ela que nos mostra o espelho no qual vemos nossa imagem refletida. Só a partir desse olhar e dessa vivência temos a oportunidade de corrigir a rota e aí sim nos tornarmos pessoas mais felizes!