Hora de voltar

Pare para pensar como nossas vidas estão constantemente voltadas para fora, para o mundo exterior. Nós, mulheres mais maduras, temos em nosso curriculum vasta experiência e incontáveis horas de voo em cuidar de tudo e de todos ao nosso redor. No decorrer da vida acumulamos funções e mais funções, e poderíamos ser chamadas de mulheres “poderosas” por darmos conta de tantas coisas ao mesmo tempo, e por tempo quase indeterminado!!

Não sei bem em que ordem mas, via de regra, cuidamos de nós mesmas e do nosso corpo, cuidamos da carreira profissional, a nossa e a do companheiro, dele, da casa e de tudo que a ela está relacionado, dos filhos em suas diversas fases e múltiplas necessidades, cuidamos das amigas e das relações que estabelecemos, dos compromissos sociais, dos almoços e jantares festivos e não festivos, dos pais que envelhecem e precisam cada vez mais de nosso apoio, nos preocupamos com os irmãos e sobrinhos, com aquela tia velhinha que precisa de um carinho, com a moça que nos ajuda em casa e que anda com uma carinha jururu, com a programação dos finais de semana, com a viagem de férias, com a economia doméstica e mundial, com o dinheiro que falta, com a nossa espiritualidade, com os mistérios da vida, as nuances inconscientes, com o que é dito e o que é silenciado, com a aparência, com os fios brancos que precisam ser pintados, com as plantas de casa, com o gato, o cachorro, o papagaio, com os amigos dos filhos, com a informação do que está acontecendo para não ficarmos de fora, ufa!!! E não pense que acabou, desconfio que essa lista é interminável… eu é que cansei de nomear as atividades.

E assim passa o tempo e a vida, vão e vem as estações e seus ciclos, e começamos a sentir uma certa inquietação, algum desconforto difícil de discriminar, um certo cansaço. Uma vontade de ficar quieta, em silêncio, um pouquinho que seja. Vontade de não fazer nada, folhear revistas, ler um livro, olhar o álbum de fotos onde a vida é recontada através das imagens.

Vontade de ir à praia, não mais para pegar aquele bronze e desfilar com o biquíni da moda, mas para caminhar pela areia nos finais de tarde repousando a alma no mar. Vontade de ir para as montanhas, não no meio do buxixo e dos points, mas no alto daquela pedra onde o nosso olhar se perde na imensidão, entre serras e céu, árvores e nuvens, respirar o ar fresco e perfumado, sentir a energia desse Universo sem começo nem fim.

Vontade de voltar para casa, para aquele lugar interior de onde saímos para ganhar o mundo, feito Amazonas, mulheres integrantes de nações antigas e guerreiras, que cavalgavam pelas florestas conquistando homens e territórios.

O lar é aquele lugar psíquico onde tudo parece funcionar e ter sentido, onde tudo é como deveria ser, onde a voz da alma entoa canções conhecidas que nossas ancestrais cantavam ao redor de uma fogueira, de uma nascente de rio, de um círculo de mulheres. Canções que nos tranquilizam e nos fazem relembrar quem somos, o que gostamos, o que queremos para agora e para depois. Não espere terminar todos os seus afazeres para permitir-se voltar, não espere pelo momento certo porque ele não existe. Volte-se para você mesma e redescubra a dor e a delícia de ser o que é!

Outono

Nos últimos dias, não por mera coincidência mas por pura sincronicidade, li algumas entrevistas sobre pessoas idosas, prá lá dos 90, saudáveis e joviais, que realizam-se fazendo alguma atividade que iniciaram por volta dos 50 anos. Não sei se viram um senhor italiano de 100 anos que começou a esquiar aos 48 e continua fazendo isso até hoje, com menos destreza mas com muito mais alegria. Quando eu vejo pessoas como essas derrubando preconceitos em relação à idade, meu coração pula no peito.

O percurso trilhado pela humanidade é uma história de domesticação. Desde o nascimento herdamos um pacote considerável de crenças e pressupostos sobre nossa vida neste planeta. Aprendemos que somos seres humanos restritos e limitados, que nossa existência pressupõe a correspondência às expectativas que sobre nós foram depositadas, que devemos obedecer às regras e seguir as convenções, e que precisamos nos comportar de tal maneira que nos mantenha na média ou na normalidade.

E dentro desse conjunto de crendices há uma que está sendo colocada em cheque agora, a de que as pessoas devem conformar-se com o processo de envelhecimento e retirar-se do mundo da ação, recolhendo-se ao isolamento de suas velhices. Como se, de fato, o mundo fosse dos jovens, e aos mais velhos só coubesse a retirada silenciosa.

Esse pressuposto é extremamente cruel, uma vez que sabota a alegria de viver e as perspectivas de felicidade daqueles que já viveram mais. Parece até que, justamente por isso, devem abdicar de seus direitos e aguardar o momento de deixar este mundo cochilando em uma cadeira de balanço e renunciando aos prazeres de maneira geral.

Na verdade, precisamos nos preparar para não nos tornarmos velhos. É claro que envelhecemos, o tempo passa e deixa marcas tanto no corpo físico quanto nos corpos emocional e mental, não é a isso que me refiro. Envelhecer é um processo natural, mas tornar-se velho é uma escolha infeliz. E quando nos tornamos velhos? Quando deixamos de sonhar, ou quando trocamos os sonhos de vida pelos sonhos de morte.

Aos 50 estamos vivenciando a estação do outono, momento da troca de folhas, momento de deixar ir embora o que já não nos serve mais. Mas também este é o momento de buscar novos alimentos que nos permitam atravessar o inverno agasalhados e saciados. Precisamos buscar o que a alma pede, pouco importa a opinião dos outros sobre isso, ou o seu julgamento. Há quem considere esse senhor que mencionei no inicio um louco, por continuar fazendo o que gosta a despeito dos seus 100 anos, mas e daí? Que cada um julgue de acordo com o tamanho daquilo que sonha, isso pouco importa.

O que importa mesmo é a busca da felicidade a cada ciclo de vida, e como nós mudamos, o que se busca também muda. Se antes precisávamos de reconhecimento e aprovação, agora podemos nos permitir prescindir disso, e ouvir mais o próprio coração. Já aprendemos que somos muito mais do que aparentamos ser, e que trazemos em nós a chama do espirito imortal.

O silêncio

Sempre fui uma pessoa notívaga, adoro dormir tarde, circular pela casa de madrugada, espiar pela janela a rua vazia, espichar o olho até o céu e procurar estrelas; mas principalmente, gosto do silêncio.

Cada som que ouvimos é um estímulo, e a junção deles todos no decorrer do dia produz um barulho ensandecido, como se fosse um cruzamento de impulsos dissonantes que nos levam a um estado constante de stress. Nas cidades já estamos tão acostumados a ele que mal nos damos conta de sua presença; o incorporamos na nossa vida como fazendo parte de nós. Entretanto, isso não significa que ficamos imune aos seus efeitos, muito pelo contrário.

A dificuldade na concentração, a sensação de permanente cansaço, a intolerância frente a coisas tão pequenas, a respiração curta, a musculatura rígida e tantos outros indícios de que estamos sob stress se fazem presentes no nosso cotidiano. Os barulhos internos e externos nos bombardeiam numa batalha sem fim.

Mas, na medida em que a noite avança e as luzes de nossas casas se apagam, um som diferente surge e nos envolve, o silêncio! Isso me remete à histórica apresentação de Simon and Garfunkel no Central Park , na década de 80, cantando “The sound of silence”.

O silêncio é uma trégua, um momento precioso onde as manifestações do mundo externo parecem cessar. Me transporta a um lugar sagrado dentro de mim, um vale tranquilo cortado por um riacho, onde me sinto alforriada das amarras que me mantem refém de um mundo apressado e barulhento.

Mas o silêncio, para ser benção, precisa vir principalmente de dentro. Nossos pensamentos parecem gralhas, são incessantes e repetitivos; nos inundam feito água de enxurrada, vão tirando tudo do lugar, incitam emoções e vícios, preocupações e cismas.

Silenciar os pensamentos é abrir uma porta para outro mundo, é a possibilidade de entrar em contato com um universo diferente, muito mais amplo e mágico. O lugar onde habita quem de fato somos, a alma que pulsa para muito além do racional e do concreto, dos zumbidos e das limitações desta suposta realidade.

Entre mulheres

Nesta semana foi comemorado o dia da mulher, e muitos posts apareceram nas redes sociais em homenagem a todas nós. Alguns contavam sobre a origem dessa data, que representa a luta das mulheres por melhores condições de vida e de trabalho desde o século XIX, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na época elas reivindicavam a redução da jornada de trabalho de 15 horas diárias (você não leu errado, eram 15 horas!) e protestavam contra a discriminação de gênero. Com o passar do tempo esse movimento cresceu e, em maio de 1908, nos Estados Unidos, foi celebrado o primeiro Dia da Mulher com uma manifestação que reuniu mais de 1500 mulheres em favor da igualdade política e econômica no país. Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, operárias russas juntaram-se a outros segmentos da população e manifestaram-se contra o Czar Nicolau II, contra as péssimas condições de trabalho, a fome e a guerra em um protesto que ficou conhecido como “Pão e Paz”.

Como a história nos mostra, a luta das mulheres por seu reconhecimento junto à sociedade não é recente, e tão pouco seu fim parece próximo. Embora tenhamos avançado muito na conquista desse espaço, é inegável que o caminho pela frente ainda é longo e tortuoso. Para cada avanço existe uma tentativa de retrocesso, dentro de um sistema patologicamente machista, e a fala do Presidente da República esta semana sobre a “importância” das mulheres vem de encontro a esse ranço preconceituoso e retrógrado.

Mas isso não é importante; de nada adianta esperar que a conscientização baixe sobre toda a humanidade como uma luz e acenda as mentes obscuras e sombrias. O que vale é lembrar com imensa gratidão de nossas ancestrais, mulheres que abriram caminho onde antes nada existia, que se atreveram a pensar, contestar, lutar, pagando muitas vezes o preço com suas próprias vidas. O que vale é a nossa conscientização diária de que temos o dever e o privilégio de continuar lutando e alargando esse caminho para aquelas que virão depois de nós, nossas filhas, netas, bisnetas, todas as nossas sucessoras.

Que as mulheres do futuro possam se beneficiar da nossa luta, assim como nós usufruímos os benefícios da luta das mulheres que nos precederam. Que possamos criar nossos filhos homens com muita atenção e sabedoria, dando a eles a oportunidade de se tornarem homens íntegros, conhecedores do sentido de igualdade entre todos os seres humanos. Que possamos criar nossas filhas com asas, para que seu vôo seja maior e tenha um alcance para muito além do nosso. E que possamos honrar o sagrado feminino que carregamos em nós, o princípio do amor, da sabedoria, da força e do poder.

Tudo isso só é possível na medida em que nos conectamos, tanto com a nossa essência quanto com nossas companheiras de jornada, mulheres que seguem conosco pela vida, com quem podemos estabelecer relações de confiança, de ajuda, de suporte, de troca. Cada uma de nós é uma árvore plantada no solo da Grande Mãe Terra, nossas raízes se comunicam e se amparam, potencializando a força de cada uma e criando uma grande rede de energia feminina, que gesta interruptamente o processo de evolução humana.

É imprevisível

Vocês lembram da cena inicial do filme Forrest Gump? Tom Hanks está sentado em um banco enquanto uma pequena pena voa ao sabor do vento até cair sobre seus pés, quando então ele a recolhe. Por que lembrei disso agora? Justamente porque estava pensando em como a nossa vida assemelha-se a uma pena que dinamicamente se move, para cá e para lá, à mercê dos ventos.

Às vezes sopra uma brisa suave, e temos a ilusão de que podemos controlar sua direção. Outras vezes sopra uma rajada mais forte, vem uma turbulência, e demoramos um pouco para nos aprumar. Mas difícil mesmo é quando uma ventania se faz presente, e a pena que estava movendo-se em uma determinada direção, abruptamente é carregada para o outro lado, de uma maneira desordenada e num ritmo completamente diferente. Aí sim somos forçados a constatar que houve uma mudança, a despeito da nossa escolha ou desejo, a despeito sequer de nos sentirmos preparados para enfrentá-la, e que se faz necessário corrigir a rota que estávamos seguindo e criar condições internas para aceitar a mudança que já aconteceu.

E de nada adianta a perplexidade ou a lamentação; tão pouco parece útil a tentativa de justificar o que aconteceu, atribuir-lhe causas, razões. O nosso choque é resultado de vivermos tão resistentes e inconscientes diante da constatação de que a impermanência é a regra do jogo.

Um placar favorável não é garantia de que o jogo está ganho, assim como um placar desfavorável não é uma sentença de condenação. Vamos recordar a dualidade da nossa existência? Dia e noite, sol e chuva, frio e quente, passado e futuro, amor e ódio, e por aí vai… Eu pessoalmente acredito que estamos aqui para aprendermos justamente a encontrar o caminho que nos leve à unificação e integração das experiências; e vivenciar os pares de opostos talvez seja o método para essa aprendizagem.

Então vamos lá, força na peruca!! Seja inteiro e esteja inteiro em tudo que faz. O momento presente é o único lugar possível para aportarmos. Se você está ganhando o jogo, mergulhe de corpo e alma nessa alegria. Divirta-se, aproveite cada oportunidade de ser feliz. Encante-se com cada por do sol, ria até doer a barriga, fique até o último minuto, depois de acabar o sorvete não esqueça de lamber os dedos. Não economize beijos, abraços, encontros para jogar conversa fora; ouse!

Porque quando o placar ficar desfavorável, você vai encontrar uma reserva de força e de alegria dentro de você que vai ser imprescindível para que possa atravessar o caos e manter-se inteira, firme e forte, até reencontrar um porto feliz.