Fim do mundo

Vocês repararam, abrindo o feed de notícias do Facebook ou as sugestões do Youtube, a quantidade de possíveis datas para o fim do mundo? A quantidade de reportagens que mencionam que um asteroide vai passar ou passou raspando pela Terra em tal dia? Se eu fosse assinalar na folhinha pendurada na minha cozinha todas as datas citadas para o apocalipse, provavelmente ela já estaria toda rabiscada… Parece que, como o mundo não acabou em 2012 conforme o “previsto”, continuamos apostando que esse dia em breve chegará.

Do ponto de vista do comportamento humano, qual é o significado dessa expectativa? Realmente desejamos que o mundo acabe e fazemos um jogo de estipular datas? Ou achamos divertido brincar de roleta russa com asteroides e afins? Qual a razão de tantos filmes catastróficos renderem milhões nas bilheterias dos cinemas pelo mundo afora?

Difícil responder a essas perguntas; por que o trágico nos atrai?

Às vezes me ocorre que o nosso aspecto destrutivo enquanto humanidade não aguenta ficar circunscrito às esquisitices diárias, e precisa projetar-se através das câmeras de Hollywood. Outras vezes me parece que a consciência da impossibilidade em controlar a vida nos leva ao excesso da vitimização, e lá vai a gangorra no sobe e desce entre a onipotência e a impotência total. Pode ser também que nos damos conta dos ataques constantes que fazemos à natureza, tanto a interna como a externa e, para expiar a culpa, fantasiamos o merecido castigo. Ou porque somos educados para o medo e pelo medo, desenhamos um futuro sombrio a nos espreitar.

Seja lá como for, por este ou aquele motivo inconsciente, ou pela somatória de vários, nossa veia sadomasoquista se deleita diante de tanta calamidade… E isso não tem a ver só com previsões sobre o fim do mundo, mas também sobre especulações desalentadoras de todas as espécies e em todos os setores.

Esquecemos a nossa origem divina, a harmonia que rege o Universo como um todo, a possibilidade adormecida em nós de criar uma realidade completamente diferente dessa que tememos e projetamos. O mundo é a projeção do sonho coletivo, e nós fazemos parte desse grupo enorme de sonhadores. Se cada um cuidar de ser um bom sonhador, conseguiremos transformar os pesadelos em sonhos leves e gostosos. E no lugar de esperar pelo pior, vamos desenhar caminhos que, ao serem percorridos, nos proporcionem prazer e gratidão por estarmos aqui!

Intolerância

Estamos vivendo um momento muito esquisito, tanto a nível de Brasil como a nível mundial. Parece que, de repente, o ser humano descobriu a verdade, e em nome dela qualquer coisa é permitida. Vale retroceder anos luz na tentativa de evolução da humanidade, vale trazer os preconceitos à tona e deixar-se conduzir por eles, vale se auto-intitular o justiceiro, o salvador da pátria, o que vai consertar tudo que está errado, vale julgar e generalizar. Pois é, vale tudo em nome da verdade… mas que verdade? Parece que aqui temos um problema, justamente porque a verdade não é, nem de longe, um consenso.

E nem poderia ser, claro! Somos criaturas tão ignorantes que aquilo que acreditamos ser a verdade dos fatos, ou a verdade “do mundo” nada mais é do que uma ilusão que criamos para ocultar o tanto que não sabemos, não compreendemos, não realizamos, não acessamos!! Ou seja, para disfarçar nossa ignorância construímos ideias e fazemos delas bandeiras, com as quais tentamos justificar e preencher nossa existência vazia. E sabe qual é a arma mais usada para o sucesso dessa empreitada? A intolerância.

Intolerância é uma armação da mente concreta, um golpe do aspecto sombrio que abrigamos dentro de nós. Manifesta-se através de postulados, de crendices e deduções. E a partir disso desenvolve-se um vasto repertório de comportamentos que sustentam e engordam o engano original.

Via de regra, parte-se do que se supõe ser a percepção da diferença; a cor branca é diferente da cor preta (e de pronto perde-se a noção de que ambas são cores, ou seja, tem uma origem única). O próximo passo é fazer um julgamento e pontuá-lo (no sentido de atribuir valor); esta cor é melhor do que a outra. Isso é seguido por uma avalanche de deduções: se esta cor é melhor do que a outra, isto significa que quem usa esta cor é desta maneira, e quem prefere a outra cor é o oposto disso. Pronto, a separatividade já deu o ar da graça (ou da desgraça, melhor dizendo). E por fim aparece em cena a generalização: todos que usam esta cor são assim, e todos que usam a outra cor são de outro jeito, e com isso foi dada a largada da “caça às bruxas”, quem pensa diferente do que eu penso é meu inimigo e deve ser combatido.

Esse movimento insano é feito bola de neve, vai do individual para o coletivo num piscar de olhos e abrange todos os níveis das relações humanas. Está presente tanto no relacionamento entre eu e meu vizinho de porta (um ouve rock e o outro sertanejo, e só um de nós tem gosto musical apurado), passando por ideologias religiosas (meu Deus é o verdadeiro e seu deus é fake), por convicções políticas (o partido com o qual eu simpatizo é formado por pessoas honestas enquanto que o partido com o qual você simpatiza é constituído de ladrões), por supremacias raciais, culturais, sócio-econômicas, sem falar no gênero e na opção sexual de cada um.

E assim vamos, aos trancos e barrancos, compartimentalizando a vida e os seres humanos. Na “guerra santa” entre deuses e demônios nos fragmentamos, afastando-nos da nossa origem comum, única e universal. Adoecemos, cindimos e nos posicionamos uns contra os outros. Até parece que não compartilhamos do mesmo oxigênio, que não pisamos no mesmo solo do mesmo planeta, que não precisamos uns dos outros para viver e evoluir. Até parece que somos os proprietários da verdade…                                                      

Isso me faz lembrar de uma passagem de Mia Couto, escritor moçambicano, em um de seus livros: “Do ponto de vista da álgebra a ternura é um absurdo”.

Carpem diem na Bahia

Acabo de chegar da Bahia. Uma semana de sol, praia, piscina, sem nenhuma obrigação. Dormir na hora que der vontade, comer o que bem entender, com direito até à Prosecco na beira da piscina. Uma mordomia…

Isso existe. Sabe que eu havia até esquecido? Depois de um ano de trabalho constante eu estava precisando viver pelo menos uma semana dolce far niente para zerar o cronômetro.

E então, sem mais nem menos, incrivelmente, debaixo de um céu lindo, dentro de um mar delicioso, minha mente viajava e ia se preocupar com não sei bem o que. Como assim?

Então, fiz o seguinte: cada vez que eu começava a divagar, ou fazer suposições, ou seja, perdia o foco da realidade que estava vivendo, eu pensava: só existe o agora. Isso é tudo. E se eu morrer amanhã?

Não, não há nada de mórbido nessa pergunta. Pois segundo Carlos Castaneda “A morte é a melhor conselheira. Ela é um lembrete de que não somos imortais e que, assim sendo, devemos aproveitar cada dia que não é ofertado, dado de Presente! Fiquei muito atenta a cada momento, aproveitando a visão do céu de estrelas, o ritmo das músicas, a temperatura da água… O mundo não tem que estar perfeito, mas é a gente que tem que estar aberta a ele, reconhecendo que está sentindo, vivenciando o que se apresenta.

De volta à Sampa, retomei todas as atividades, mas repensando a rotina. O que me causa estresse cotidianamente? O que dá para fazer de diferente? Dá para alterar isso?

E quais são as coisas, as atividades que me motivam, que me fazem sentir mais viva? E possível dar mais espaço para elas?

E aquilo que é chato e inevitável? O melhor é fazer logo e ficar livre. Procrastinar só me faz carregar um peso inútil na cabeça.

E no meio de tudo isso, o que é imprescindível? Estar atento ao momento presente. Viver cada dia com atenção e intensidade, aproveitar cada momento em que é possível rir, estar em boa companhia, usufruir da vida.

Afinal, como já sabemos, não vamos ficar para semente. E já que é assim, o melhor mesmo é fazer uma enorme plantação de bons momentos. Carpe Diem.

Tempo, tempo, tempo

Mal começou o segundo mês do ano e já tenho a impressão subjetiva que 2017 está na metade… acabo de voltar das férias e parece que elas aconteceram a um longo tempo atrás… vocês também compartilham dessa sensação?

Pois é, dizem que o tempo é relativo, que nós, humanos, criamos essa medida chamada tempo, mas que, de fato, ele não existe. O Universo é atemporal assim como o nosso inconsciente é atemporal, como bem postulou Freud. Tudo ocorre simultaneamente: passado, presente e futuro são instâncias arquitetadas pela mente racional que nomeia, discrimina e separa.

É essa mente racional que faz com que a gente conte o número de anos vividos, e se assuste com eles quando passamos do que consideramos juventude. Uau, já passei dos 50, meu Deus, onde eu estava que nem me dei conta disso? Já estamos em fevereiro de 2017, uau!!! Onde eu estive entre o Natal e agora? Os filhos cresceram e eu nem percebi, onde eu estava enquanto eles saiam da barra da minha saia e ganhavam asas para voar por aí?

A resposta é simples: você, eu, todos nós, estávamos vivendo!!! Você, eu e todos nós continuamos vivendo. A vida é uma pulsação intermitente, é energia que flui em diferentes frequências, e nos coloca em um processo contínuo de experimentação, elaboração, aprendizagem. E, quanto mais mergulhamos nesse processo, mais temos a impressão de que o tempo passa depressa. A intensidade do que vivenciamos dá o tom do que imaginamos ser a velocidade da passagem do tempo.

Via de regra somos seres intensos, vivendo em um planeta repleto de oportunidades que se apresentam através dos eventos. E como tudo é energia, a vida parece ser uma cachoeira que jorra água aos borbotões. Às vezes parece que vamos nos afogar; outras vezes conseguimos desfrutar com calma o cenário que se apresenta.

Talvez, neste eterno agora, estejamos vivenciando uma aceleração. É como quando estamos na escola, o ano está acabando e ainda há matéria para ser ensinada, precisa ser agora, e lá vem aquele montão de coisas. Mal dá tempo de compreender um tópico, vem o seguinte, e o outro, e é preciso dar conta.

Pois bem, se o propósito de nossa existência for aprender para se desenvolver, está tudo certo, os ponteiros do relógio pouco importam. O que importa é com que intensidade mergulhamos em nossas vidas, e com que determinação e consciência seguimos nosso propósito. O primeiro desafio é descobrir o tal do propósito de cada um de nós; para isso é necessário baixar um pouco a cortina das janelas que nos fazem olhar para fora, e nos voltarmos para dentro, em silêncio, para que possamos ouvir o que nossa alma sussurra.

O segundo compromisso

O livro Os Quatro Compromissos, de Don Miguel Ruiz [resenha aqui], traz ensinamentos preciosos:

  1. Seja impecável com a sua palavra
  2. Não leve nada para o lado pessoal
  3. Não tire conclusões
  4. Dê sempre o melhor de si

Quando efetivamente aplicados em nosso dia a dia mudam nossa forma de agir e melhoram a vida.

Vou lhes dar o exemplo que para mim foi o mais marcante. Dirijo muito pela cidade de São Paulo, o que significa incontáveis minutos (quando não horas) num trânsito infernal. A coisa mais comum é acontecer mal entendidos nesse ambiente: alguém que joga o carro na frente do nosso para forçar passagem, motoqueiros que não nos deixam mudar de faixa (sim, isso é muito comum por aqui), motoristas lentos que nos fazem perder os faróis verdes, etc.

Típico trânsito da Av. 23 de Maio, onde trafego frequentemente

A mentalização do segundo compromisso ao dirigir transformou esse ambiente de guerra em algo tranquilo para mim. Não importa o que aconteça, a simples consciência de que aquele ato aparentemente hostil não foi algo feito visando me aborrecer intencionalmente, não foi nada pessoal, retira o stress da situação.

A diferença em paz de espírito é notável. Para não esquecer nunca mais disso anotei o texto do segundo compromisso num marcador de livros e prendi-o no quebra-sol do carro.

Tente essa prática. Você vai se surpreender com a eficiência de uma frase aparentemente tão simples.

Obs.: Este post apareceu primeiro no blog Pílulas de Moda e foi escolhido para republicação aqui devido minhas férias.