Dezembro

E aqui estamos nós, aportando no último mês do ano. De verdade, não dá para ficar indiferente a Dezembro, é um mês singular. Isso não significa que ele seja bem quisto por todos, claro que não! Há quem o adore e quem o deteste, por razões subjetivas e diversas.

Dezembro chega para sinalizar que o ano está por um fio e isso nos remete ao que vivenciamos nos últimos onze meses. Lembram-se quando começou 2016? Certamente fizemos algumas projeções sobre o ano que estava começando, nos prometemos uma série de coisas, desde emagrecer aqueles quilos adquiridos na comilança das Festas até mudanças estruturais e significativas em nossas vidas. Do que nos prometemos, o que cumprimos?

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Mas não vamos entrar por aí agora, vamos voltar a Dezembro. A corrida das compras, Black Friday (ou black fraude) já foi, e com ela foi dado o start. A lista dos presentes de Natal, o impacto disso sobre o orçamento, as mais diversas confraternizações com pessoas que muito pouco convivemos durante o ano todo (o que não significa que não sejam queridas), a reunião da família para a noite de Natal, o menu da ceia, a divisão (ou concentração) de tarefas, o encontro para tirar os papéis do amigo secreto, a programação das férias, a escolha entre a praia ou o interior, a ficha que cai do calor que enfrentaremos porque não sobrou dinheiro para a compra do ar condicionado, o suspense e a tensão até saber se o filho passou de ano no colégio, passou no vestibular, passou de ano na faculdade, vai conseguir notas para se formar, as festas de formatura de filhos, sobrinhos e afins, a apresentação do teatro da escola, do curso de música, a compra antecipada do peru (vai que acabe), marcar horário na manicure para o dia 24… Nossa, e o Réveillon? A procura por hotéis, o preço abusivo para essa data, as opções de passar em casa, no clube, na Paulista, o desejo de pular as sete ondas, o trânsito na estrada para a praia, os fogos que eu queria tanto ver, o congestionamento nas areias de milhares de pessoas envoltas em roupas brancas, as simpatias que seria bom fazer, o champanhe, aquele presentinho curinga para quem eu esqueci de colocar na lista, a postagem nas redes sociais desejando o bem para os amigos (ufa, que bom que os cartões de Natal foram substituídos e eu não preciso ficar na fila dos Correios), e o tempo a ser gasto pensando se eu esqueci de alguma coisa……

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Percebe como Dezembro é singular? Não dá para ficar indiferente a ele!! Não dá para não olhar para trás e pensar que, apesar de todas as inúmeras crises internas e externas que 2016 trouxe, sobrevivemos!!!!! Que depois de tanta correria virá uma pausa, um break nas brisas de Janeiro, um desacelerar, dormir até mais tarde, tomar sol (vamos abstrair as tempestades), ler aquele livro que está separado (abstraia também os IPs da vida, IPTU, IPVA), relaxar…

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Então respire fundo, faça um alongamento, e diga para Dezembro que ele pode vir, que venha, estamos prontas para ele!

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Segundo tempo, novas escolhas

Lembram-se quando estávamos na faculdade? Na passagem do primeiro para o segundo semestre acabávamos refazendo algumas escolhas, puxando algumas matérias, deixando outras para depois, reorganizávamos o horário e planejávamos um semestre um pouco diferente; vamos traçar um paralelo entre essa situação e o momento que estamos vivendo?

No primeiro semestre da entrada na vida adulta (ou até antes disso) fizemos uma série de escolhas que, acreditávamos, seria para o resto de nossas vidas. Escolhemos a faculdade que nos levaria ao exercício da profissão sonhada, escolhemos o companheiro ao lado de quem viveríamos e envelheceríamos, a cidade onde moraríamos, o círculo de amigos, o tipo de lazer e tantas outras escolhas. Quando ainda somos calouros em relação à vida costumamos imaginar que nossa existência acontecerá em um movimento contínuo de ascensão, afinal nos conhecemos e sabemos o que desejamos.

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A vivência ao longo do tempo tende a desconstruir essas certezas; vamos nos dando conta que dentro de nós habita um ser praticamente desconhecido, um enigma que nos desafia e, tal qual a esfinge no mito de Édipo, provoca-nos: decifra-me ou devoro-te!! Esse “eu” vai revelando-se aos poucos, brinca de esconde-esconde, é multifacetado, composto de luz e sombras, ambivalente, intenso. A cada estação da vida nos mostra uma face, pleiteia buscas diferentes, anseia por novas experiências; quando ainda estamos envolvidas com muitos papéis, como a profissional em começo de carreira, a mãe de filhos pequenos, a responsável por cumprir inúmeras obrigações do dia a dia, temos que sufocar a voz desse eu toda vez que ela não estiver de acordo com a lista das responsabilidades que assumimos.

Todavia o tempo passa, a carreira se consolida de alguma maneira, os filhos crescem, ganham asas, voam. Já não somos mais tão imprescindíveis na vida do outro, já há espaço entre nós por onde os ventos da vida circulam. Já é tempo de nos voltarmos para as necessidades que brotam de dentro de nós. Sabem todos aqueles projetos que foram adiados, os sonhos que talvez sequer tenhamos ousado sonhar, o tempo que não tínhamos ou a permissão interna que não nos concedemos para fazer o que queríamos? Pois é, a hora é essa!

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A descrição do mundo, com seus atrativos e suas urgências, já nos seduziu e nos fascinou o suficiente; já acreditamos um número incontável de vezes que a felicidade estava nos aguardando em algum canto fora de nós, e corremos feito loucas para encontrá-la. Quantas vezes a vontade do outro colocou-se soberana sobre a nossa vontade, e nem sempre à nossa revelia, pois acreditávamos que isso poderia nos fazer feliz? E talvez tenha feito mesmo, naquele momento isso era importante.

Mas e agora? O que de fato é importante? Vamos nos reavaliar? Quais as nossas prioridades e desejos? O que nossa alma anseia por experimentar? Que dívidas contraímos com nossa criança interior?      

É tempo de olharmos para nós mesmas e nos presentearmos com todas as promessas que ficaram embrulhadas, esperando o momento de serem abertas e realizadas. É tempo de refazer as escolhas, manter o que ainda tem significado, mudar a rota do que não nos atende mais. Vamos ousar, abrir as asas e alçar voo, vamos nos permitir a liberdade de experimentar novos sabores, novos perfumes, novos encantamentos. A vida está sempre pronta a nos surpreender.

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Você já encontrou sua tribo?

Faço parte de um grupo de estudos transdisciplinares. Esse grupo surgiu há alguns anos dentro de uma universidade, entre professores interessados em adquirir conhecimentos diversos. Depois migrou para fora da instituição, e hoje nos reunimos semanalmente no espaço de um amigo querido que participou da fundação desse grupo e que o coordena, muito embora sejamos todos responsáveis por ele.

De fato é um grupo transdisciplinar; na primeira hora fazemos meditação intercalada com sugestões dos participantes, seja dança, movimentos corporais, alguma criação artística. Depois fazemos a leitura de um livro escolhido pelo grupo e, cada parágrafo lido, abre espaço para a discussão, tudo com muito humor e muitas risadas.

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Mas o que mais me encanta nesse grupo é a afinidade e a amorosidade, de tal maneira que as quintas-feiras, que é o dia do nosso encontro, acabam sendo especiais. Sentamos em círculo, nos olhamos nos olhos, falamos sobre a vida e o viver, trocamos impressões e afeto; me sinto como uma velha índia que junta-se à sua tribo.

Durante a vida cruzamos com um grande número de pessoas com quem compartilhamos o tempo. Já nascemos inseridos dentro do grupo familiar; depois, ao entrarmos na escola, passamos um longo período com outras crianças que também foram lá colocadas, e naturalmente nos aproximamos de algumas com quem temos afinidades. Depois vem o grupo da faculdade, do estágio, do trabalho, o grupo social, o dos vizinhos, dos colegas de profissão, dos pais dos amigos dos filhos e assim por diante. Próximos ou não, aprendemos a administrar essas relações. Às vezes temos sorte de conviver com pessoas que agregam, às vezes não.

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Depois de percorrer a maratona dos primeiros cinquenta anos, vencidas algumas centenas de obstáculos, conquista-se a possibilidade de desenvolver um olhar novo e diferente sobre nós mesmos e a vida. Parece que há uma apuração do paladar emocional e energético, e já não nos interessa estar com pessoas que não nos toquem e que não possam ser por nós, tocadas.

Há um desejo de trocas mais intensas e profundas que nos ajude a desconstruir armaduras, a abandonar as armas da retórica e das argumentações convictas. Há uma necessidade de calma, de degustar o olhar do outro, sentir sua respiração, silenciar a própria voz para poder ouvir. Já pouco

interessa o embate, a queda de braço, o competir e triunfar sobre; a alma pede por aconchego e partilha.

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Permita-se encontrar sua tribo, mantenha-se longe das pessoas chatas e barulhentas, dos personagens do baile de máscaras, com quem muitas vezes rodamos na pista por um longo tempo, de uma maneira totalmente automática e entediada. Se dê ao direito e ao prazer de estar rodeado por gente que é fruto das escolhas do seu coração, irmãos e irmãs de alma, amigos com quem você possa exercitar-se como ser humano e aprimorar-se nessa categoria.

Depois de tantos tropeços pela experiência adquirida é hora de resignificar relações, restabelecer vínculos , encontrar a si mesmo e ao outro. Encontro é transformação, mudança. E tudo que está vivo cresce e se transforma!

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Encerrando a semana da Princesa

Vocês, que acompanham este blog, perceberam que esta semana escrevemos três textos que convergem para a mesma direção, embora abordando aspectos diferentes. A Escola de Princesas deu o que falar…

Não é para menos: as mulheres, ao longo da história da humanidade, travam uma luta sem trégua em busca de um lugar de equiparação em relação ao universo masculino. Um lugar de reconhecimento e aceitação das diferenças, afinal somos sim diferente dos homens. E ser diferente não implica em superioridade nem em inferioridade, implica apenas em não ser igual. A diferença vai desde a anatomia e constituição física até o funcionamento cerebral, ou seja, a maneira pela qual o cérebro de homens e mulheres processam a linguagem, as informações, as emoções, o conhecimento, etc.

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Na nossa cultura patriarcal e machista essas diferenças tendem a serem vistas como sintomas de inferioridade, o que nos coloca constantemente em situações de subserviência, seja no aspecto pessoal ou profissional. Vocês tem ideia de quantas mulheres foram queimadas em fogueiras na Idade Média? A “caça às bruxas” durou mais de quatro séculos!! E quem eram as “bruxas” em questão? Na maioria dos casos eram parteiras, enfermeiras e assistentes que possuíam vasto conhecimento a respeito da utilização de ervas medicinais na cura de doenças e epidemias e que, portanto, detinham um elevado poder social. Esse conhecimento era passado de geração a geração pelas mulheres da família. As bruxas foram resultado de uma campanha de terror provocada pela classe dominante, de tal maneira que muitas das mulheres acusadas acreditavam serem, de fato, bruxas e possuírem um pacto com o diabo, segundo nos contam alguns historiadores.

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Claro que estamos distantes da Idade Média, mas a história nos descortina uma realidade macabra e medonha! E não podemos negar que, até hoje, sobra um ranço disso tudo em quase todas as culturas, e que aqui no nosso país há diferenças salariais entre homens e mulheres que ocupam a mesma posição, há assédio sexual nos transportes públicos, há maníacos esparramados pelas ruas das cidades, há assédio moral de chefes para subalternas, há maridos que espancam as mulheres e assim por diante.

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Ou seja, não há príncipes nem princesas. Então, para que devemos educar nossas crianças? Ainda acredito que a melhor educação é aquela que ajuda cada ser a tornar-se aquilo que ele é, a extrair o melhor de si mesmo, a encontrar sua vocação e, através da realização nela pautada, encontrar a possibilidade de ser feliz, produtivo e generoso com toda a sociedade. Uma educação para a felicidade, onde a historia vivida possa ser escrita sem nenhum tipo de violação dos direitos e da dignidade que cada ser humano possui, independente do gênero, da preferencia sexual, da cor da pele, da religião, da conta bancária, e de tantas outras situações que nos fazem ser únicos e especiais.

Quando partimos uma laranja ao meio ficamos com dois pedaços separados, e se os juntarmos novamente, isso vai configurar uma laranja inteira. Até onde minha percepção alcança, sei que não somos fruta ou qualquer outra coisa que o valha para procurarmos pela nossa metade.

Somos indivíduos completos em si mesmo, ou, pelo menos, deveríamos pautar nossa busca em função dessa completude; assim sendo poderíamos encontrar um companheiro ou companheira que também fosse um ser humano em busca de si mesmo, e não do outro. Certamente nossas relações afetivas seriam mais saudáveis, as famílias seriam mais equilibradas e não precisaríamos nos preocupar em passar valores para nossos filhos, eles respirariam isso desde a primeira inspiração.

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Formar uma “princesa” pressupõe que ela deva esperar pela chegada do príncipe, e no afã de encontrá-lo pode se atrapalhar e acolher um sapo, e imaginá-lo príncipe. Mas um sapo continua sendo sapo, a despeito do desejo do outro.

Fernando Pessoa, além de ser um dos melhores poetas que já conhecemos, também foi extremamente feliz ao escrever em “Eros e Psique” a seguinte estrofe:

“E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.”
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Princesas? Que princesas?

Vocês já ouviram falar da Escola de Princesas? Trata-se de uma franquia mineira que acabou de inaugurar uma unidade aqui em São Paulo e que tem como lema (polêmico, diga-se de passagem) “toda garota sonha em ser princesa”. A escola destina-se a meninas entre 4 e 15 anos e ministra cursos que abrangem boas maneiras, etiqueta social, corte e costura, culinária, lavanderia e organização doméstica entre outros. Também se propõe ao resgate de valores éticos e morais e considera o matrimônio (sim, a palavra usada não é casamento) como a realização maior de todas as princesas, e a virgindade parece ser um dos tópicos relevantes.

Tempos curiosos esses que estamos vivendo. Quando, na psicologia, estudamos sobre o desenvolvimento infantil, aprendemos que durante o primeiro setênio a criança transita pela linha do desenvolvimento, ou seja, ela avança e recua, faz conquistas e retrocede, sem no entanto perder o que já aprendeu. Pensando nisso acho que nós, como humanidade, ainda não ultrapassamos os sete anos de idade…

Difícil entender o objetivo de tal proposta! Não me refiro ao aprendizado de comportamento social, regras de etiqueta, etc., mas a própria família deveria incumbir-se disso. Quanto ao resgate de valores éticos e morais, cabe questionar a que estamos de fato nos referindo.

Desde o momento que uma criança nasce, seja ela menina ou menino, inicia-se um longo aprendizado dos valores que a família vivencia. A ética e a moral de cada família são transmitidas aos filhos através das relações que se estabelecem, do que essa criança observa no comportamento de seus pais e irmãos, do que é apresentado a ela, valorizado ou rechaçado por essa família; a criança tende a replicar os modelos aos quais diariamente ela está exposta. Imaginar que a escola, qualquer que seja, é a responsável pela transmissão dos valores é, no mínimo, terceirizar a responsabilidade dos pais pela educação dos filhos.

Mas talvez o ponto que mais chame a atenção é o pressuposto de que toda menina sonha em ser princesa, e que há uma escola que vai prepará-la para isso. Dá uma sensação esquisita de que estamos voltando no túnel do tempo, misturada com um cheiro de coisa velha, ultrapassada e retrógrada.

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Vale lembrar que, tirando algumas poucas exceções, as princesas só sobrevivem porque contam com a proteção do arquétipo masculino do pai e do príncipe, provedores e protetores responsáveis pela vida das donzelas frágeis e casadouras. Elas, pobres princesas, não só não escapam do domínio masculino como também criam a ilusão de que a prisão na qual vivem é o castelo cor de rosa dos seus melhores sonhos.

Deveríamos pensar em uma escola do Ser aberta a todas as crianças, independente do gênero, que tivesse como objetivo ajudá-las a desvencilharem-se dessa pesada carga que despejamos sobre elas desde que nascem ou até antes disso, carga feita de corda, amarra, nó cego, muros e cercas. Uma escola que pudesse inspirá-las a procurar pela luz que carregam dentro, essa bússola existencial que aponta para o caminho que levaria cada uma delas a tornarem-se aquilo que verdadeiramente são, únicas e belas!

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Felizmente há uma força de crescimento que não se dobra frente aos nossos pequenos e tolos caprichos; a evolução acontece a despeito da nossa imaturidade.

 

PS: Na próxima terça-feira publicaremos o post “Sapato de Princesa” e na quinta será a vez de “Princesa ou Mulher Maravilha?“. Porque o assunto dá pano para mangas…

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