Princesas? Que princesas?

Vocês já ouviram falar da Escola de Princesas? Trata-se de uma franquia mineira que acabou de inaugurar uma unidade aqui em São Paulo e que tem como lema (polêmico, diga-se de passagem) “toda garota sonha em ser princesa”. A escola destina-se a meninas entre 4 e 15 anos e ministra cursos que abrangem boas maneiras, etiqueta social, corte e costura, culinária, lavanderia e organização doméstica entre outros. Também se propõe ao resgate de valores éticos e morais e considera o matrimônio (sim, a palavra usada não é casamento) como a realização maior de todas as princesas, e a virgindade parece ser um dos tópicos relevantes.

Tempos curiosos esses que estamos vivendo. Quando, na psicologia, estudamos sobre o desenvolvimento infantil, aprendemos que durante o primeiro setênio a criança transita pela linha do desenvolvimento, ou seja, ela avança e recua, faz conquistas e retrocede, sem no entanto perder o que já aprendeu. Pensando nisso acho que nós, como humanidade, ainda não ultrapassamos os sete anos de idade…

Difícil entender o objetivo de tal proposta! Não me refiro ao aprendizado de comportamento social, regras de etiqueta, etc., mas a própria família deveria incumbir-se disso. Quanto ao resgate de valores éticos e morais, cabe questionar a que estamos de fato nos referindo.

Desde o momento que uma criança nasce, seja ela menina ou menino, inicia-se um longo aprendizado dos valores que a família vivencia. A ética e a moral de cada família são transmitidas aos filhos através das relações que se estabelecem, do que essa criança observa no comportamento de seus pais e irmãos, do que é apresentado a ela, valorizado ou rechaçado por essa família; a criança tende a replicar os modelos aos quais diariamente ela está exposta. Imaginar que a escola, qualquer que seja, é a responsável pela transmissão dos valores é, no mínimo, terceirizar a responsabilidade dos pais pela educação dos filhos.

Mas talvez o ponto que mais chame a atenção é o pressuposto de que toda menina sonha em ser princesa, e que há uma escola que vai prepará-la para isso. Dá uma sensação esquisita de que estamos voltando no túnel do tempo, misturada com um cheiro de coisa velha, ultrapassada e retrógrada.

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Vale lembrar que, tirando algumas poucas exceções, as princesas só sobrevivem porque contam com a proteção do arquétipo masculino do pai e do príncipe, provedores e protetores responsáveis pela vida das donzelas frágeis e casadouras. Elas, pobres princesas, não só não escapam do domínio masculino como também criam a ilusão de que a prisão na qual vivem é o castelo cor de rosa dos seus melhores sonhos.

Deveríamos pensar em uma escola do Ser aberta a todas as crianças, independente do gênero, que tivesse como objetivo ajudá-las a desvencilharem-se dessa pesada carga que despejamos sobre elas desde que nascem ou até antes disso, carga feita de corda, amarra, nó cego, muros e cercas. Uma escola que pudesse inspirá-las a procurar pela luz que carregam dentro, essa bússola existencial que aponta para o caminho que levaria cada uma delas a tornarem-se aquilo que verdadeiramente são, únicas e belas!

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Felizmente há uma força de crescimento que não se dobra frente aos nossos pequenos e tolos caprichos; a evolução acontece a despeito da nossa imaturidade.

 

PS: Na próxima terça-feira publicaremos o post “Sapato de Princesa” e na quinta será a vez de “Princesa ou Mulher Maravilha?“. Porque o assunto dá pano para mangas…

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Empoderamento

Vocês já repararam que o modismo não se restringe a um determinado aspecto do comportamento humano como, por exemplo, a maneira de se vestir, mas é muito mais abrangente e abarca usos e costumes, inclusive na linguagem falada e escrita? Pois é, é exatamente o que está acontecendo com a palavra empoderamento.

Cada vez que surge um modismo parece tratar-se de uma novidade, mas, via de regra, não é assim. Muitas vezes é só uma roupagem diferente para alguma coisa que de nova não tem nada, mas é válido quando nos dá a possibilidade de resignificar uma ideia, tornando-a inclusive mais forte.

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O que mais se ouve e se lê atualmente é sobre o empoderamento da mulher, como se tivéssemos recém descoberto um poder que vem de fora, da sociedade, e que é dado às mulheres como um presente ou uma maneira de reconhecimento do seu valor. Aliás, um dos significados que o dicionário traz é a “socialização do poder entre os cidadãos, inclusão social e exercício da cidadania”. Mas Paulo Freire, um dos principais educadores brasileiros, traduziu o termo empowerment para o português como sendo “a capacidade do indivíduo realizar, por si mesmo, as mudanças necessárias para evoluir e se fortalecer”.

Podemos pensar que empoderar-se é um processo de emancipação, de libertação dos parâmetros que restringem, limitam, cerceiam, tanto externos quanto os internalizados. É aventurar-se dentro de si mesmo como quem parte para uma expedição e descobrir os próprios recursos, potenciais, atributos; e a partir dessa descoberta, assumi-los plenamente. Não há melhor escolha a se fazer do que assumir ser quem se é, desfazendo-se dos personagens vitimizados que acabamos encenando durante a vida.

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Na estação da maturidade descobrimos a força da mulher sábia que habita em nós, o poder que ficou oculto sob o véu da repressão, da opressão, da depressão; o poder que tantas vezes delegamos ao outro, invejamos no outro, desejamos do outro, como se nós não o carregássemos no ventre, na alma, no coração.

O poder está em nós, e esse poder é o elemento de transmutação da vida passiva para a ativa, da vida lamentada para a desejada, a ponte que nos faz partir da dor em direção ao prazer. Esse poder é um direito, uma conquista e uma responsabilidade que temos em relação a como vamos transitar por este planeta enquanto estivermos por aqui. É através desse exercício que mudamos de lugar, abandonamos a plateia e subimos ao palco para sermos a protagonista da nossa vida!!

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Sobre todas nós

Hoje faz uma semana que conseguimos colocar este blog funcionando, e um pouco para comemorar, um pouco para conversar sobre ele, nós três, que nos aventuramos nessa empreitada, saímos para almoçar.

Um encontro entre amigas é sempre algo muito interessante; os assuntos pipocam e estouram feito milho em óleo quente, um atrás do outro, ao som de muitas risadas e com um jeito de travessura. Falamos de tudo um pouco, desde relembrar coisas que fizemos no decorrer da vida (a maioria delas engraçada, claro) até o que estamos vivenciando hoje, nesta estação da maturidade.

Ao escrever isso vem um verso de Caetano: “Não me venha falar na malícia de toda mulher, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sabem de uma coisa? A delicia é maior do que a dor, infinitamente maior!! Nós mulheres aprendemos desde muito cedo que a sensibilidade é uma vantagem porque ela nos possibilita adentrar no universo dos relacionamentos como quem mergulha no mar num dia quente, cheias de vontade, alegria e prazer.

E na medida em que o tempo passa e vamos nos libertando dos afazeres em excesso, maior ainda é a vontade de mergulhar.

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Cada fase da vida tem seu custo e seu encanto; se por um lado não temos mais aquele corpinho de dar inveja e, como bem escreveu Rubem Alves, a quantidade de jabuticabas que já comemos é maior do que as que ainda restam na bacia, por outro vivemos um momento onde já não se faz importante provar a nós mesmas ou a quem quer que seja, quem somos. Disso já temos vaga ideia… Nossas carreiras já estão consolidadas, nossos filhos cresceram e não somos mais imprescindíveis, conseguimos sair de casa mesmo que o cabelo não esteja impecavelmente arrumado e somos até capazes de aceitar um convite para um encontro de última hora com amigos queridos mesmo sem termos ido à manicure, não é fantástico isso?

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A vida sempre vale a pena, e a maturidade traz de presente para nós um olhar mais tranquilo e mais seguro em relação à vida, afinal já atravessamos tantas tempestades e sobrevivemos a todas elas… e melhor ainda, já sabemos que o amanhecer do dia seguinte é um espetáculo imperdível, cheio de cores, ensolarado como nunca!

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E aí, 50?

Pois é, depois de período longo de incubação, de tentativas e erros, estamos aqui (re)iniciando o blog que queremos fazer, um espaço para reflexão sobre corpo, moda, saúde e comportamento de quem encontra-se na estação da maturidade. Na verdade gosto da ideia de que o tempo, assim como o concebemos, não existe. Nós humanos instituímos o calendário e contamos a vida através de datas, da marcação da passagem do tempo, de nomenclaturas e categorias, mas já repararam que só nós fazemos isso?

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O Universo, assim como o nosso inconsciente, é atemporal; tudo ocorre simultaneamente, paralelamente, no eterno agora. A natureza segue o ritmo interno, muda com as estações, que não tem a ver com datas, mas com ciclos de nascimento, vida e morte. E os ciclos tem relação com a prontidão, com o instante em que algo já se esgotou e o novo ocupa seu lugar. Há primaveras frias, invernos chuvosos, verões mais secos, e tudo é possível porque as estações não seguem os padrões que nós estabelecemos, a vida não ocorre na separação do tempo, a vida pulsa além do tempo e do espaço.

Por isso este blog comporta todo mundo, independente da idade cronológica, já que o que vamos abordar aqui tem relação a um ciclo, a uma estação da vida, a vivências que podem acontecer dentro de nós a qualquer momento em que estivermos prontas para isso.

Sejam bem vindas, sentem-se aqui conosco, vamos olhar para nós mesmas, vamos entrar em nós e explorar esse Universo inteiro que anseia por manifestar-se, expressar-se e expandir-se. Vamos olhar para o passado com gratidão por todas as lições aprendidas, pela possibilidade da maturidade em alguns aspectos; para o presente com entusiasmo pelo que desejamos e podemos fazer agora, nos permitimos fazer agora, e para o futuro com muitos sonhos recém plantados no quintal de nossas almas!

Rhododendrons at Riga botanical garden

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