Impermanência

Esta semana ficamos frente a frente com a constatação da impermanência; não há nesse conceito nenhuma novidade. Diga-se de passagem, morrer é a única certeza que temos durante a vida, e mesmo assim é um dos mistérios mais difíceis de compreender e aceitar.

Quando nos deparamos com a morte de pessoas idosas, que já viveram muito e percorreram um longo caminho de aprendizado e realizações, talvez tenhamos um pouco mais de disponibilidade em acolher essa ideia; mas o mesmo não acontece quando pessoas jovens, recém ingressas na vida adulta, partem de maneira inesperada. Presenciamos a comoção e a dor que a partida desses jovens jogadores e jornalistas causou em todos nós, independente de sermos ou não fãs do futebol. Pessoas que partem cedo desta jornada parece que deixam apenas um esboço do que viriam a ser, experimentam apenas um pouco de todos os sabores da vida, ensaiam passos que não poderão apresentar. É como se fossem retirados do imenso salão quando a orquestra mal começou a tocar, a festa apenas se anuncia, o melhor ainda está por vir.

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De qualquer maneira fatos como esse nos fazem repensar a forma como estamos vivendo nossas vidas. Há quem diga que somos viajantes do tempo e do espaço, estamos aqui de passagem, viemos com o objetivo de vivenciarmos uma série de coisas e aprendermos com isso, para depois voltarmos para casa. Seja lá qual for a nossa crença, é certo que estamos de passagem, que um determinado dia vamos partir, e que todos ou outros incontáveis dias nos é dado viver.

Viver insinua uma experiência subjetiva, relativa, que traz em si um prisma de cores e nuances diferentes para cada um de nós. Há os que se dispõe apenas ao feijão com arroz de cada dia, o cumprir o trajeto percorrido e conhecido, os “certinhos” que batem ponto no cartão da vida. E lá vem Chico Buarque cantarolando na minha memória …”todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual, e me beija com a boca de hortelã.”

Há também os sonhadores, que não aceitam a descrição do mundo tal qual ele se apresenta, que imaginam que deve haver uma outra maneira, um outro lugar, um outro aroma, sabor, temperatura, os inquietos por natureza e convicção. Os que se aventuram para além dos muros e cercas, que pintam a cara, o cabelo, o corpo, que misturam tintas sempre em busca da descoberta de novas tonalidades.

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Há o ateu e o crente, e há também quem viva a vida não acreditando em nada, graças a Deus! Há quem junte dinheiro e quem junte esperança, há quem invista em ações e quem invista em relações, há o que coleciona mágoas e o que coleciona momentos, quem se aventura e quem se esconde, quem se declara e quem se protege. Alguns vivem a vida transpirando emoção, gostam de pele, de toque, beijos e abraços; outros são reservados, racionais, mantem-se distantes, preservam-se.

Mas no frigir dos ovos, no momento da travessia da ponte que nos levará para a outra margem do rio, o que levaremos daqui? Qual o peso ou a leveza de nossa bagagem? Se acaso alguém estiver nos esperando do outro lado, o que teremos para contar? O que teremos para compartilhar?? O que diremos a nós mesmos quando o silêncio deste mundo nos envolver? Tomara possamos viver de tal maneira a própria vida que tenhamos muitas e boas estórias para contar!

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A Roda da Vida

A vida é, definitivamente, dinâmica. Cada mudança nos traz novos fatores para analisar, novas formas, novas possibilidades. E é bom que seja assim. No entanto… Como resistimos às mudanças, mesmo quando elas são necessárias, mesmo quando dizemos gostar delas! A razão é muito simples: inércia, medo do novo, hábito do velho.

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Nos acomodamos como gatos em um velho sofá de uma casa e somos capazes de passar lá uma vida inteira, a não ser que a Vida nos jogue para fora, quer por excesso de dor, quer por algum imprevisto, por uma circunstância nova que se impõe e nos obriga a reagir, sem sequer poder argumentar. Assim é. E lá vamos nós, meio contrariados, meio contrafeitos, a contragosto, rumo ao desconhecido, esse, aparentemente, eterno inimigo que nos espreita de olhos semicerrados.

Pois é aí que mora o erro. A mudança não é necessariamente ruim, nem o desconhecido é inimigo. Dependendo da forma como se encara, o desconhecido é, na verdade, um grande aliado. É ele que traz emoção à vida, uma certa surpresa, um toque de pimenta no dia a dia já macerado por excesso de uso e de repetição.

Como fazer, então, para transformar mudanças indesejáveis em motores de realização?

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Primeiro: Analisar. Há algum aspecto positivo nesta nova condição? Qual? Há algum aspecto negativo? Qual? É possível estimular o positivo e neutralizar o negativo?

Segundo: ver-se como co-criador. De alguma forma eu desejei essa/alguma mudança, através de pensamentos, palavras ou atos?

Terceiro: Graças a essa nova condição posso me aproximar daquilo que desejei? Posso, através dessa mudança, criar algum aspecto mais positivo na minha vida?

A Vida é plena de potencialidades, de possibilidades. Olhar para elas com um sorriso nos lábios, de braços abertos, é talvez a melhor forma de existir.

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Dezembro

E aqui estamos nós, aportando no último mês do ano. De verdade, não dá para ficar indiferente a Dezembro, é um mês singular. Isso não significa que ele seja bem quisto por todos, claro que não! Há quem o adore e quem o deteste, por razões subjetivas e diversas.

Dezembro chega para sinalizar que o ano está por um fio e isso nos remete ao que vivenciamos nos últimos onze meses. Lembram-se quando começou 2016? Certamente fizemos algumas projeções sobre o ano que estava começando, nos prometemos uma série de coisas, desde emagrecer aqueles quilos adquiridos na comilança das Festas até mudanças estruturais e significativas em nossas vidas. Do que nos prometemos, o que cumprimos?

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Mas não vamos entrar por aí agora, vamos voltar a Dezembro. A corrida das compras, Black Friday (ou black fraude) já foi, e com ela foi dado o start. A lista dos presentes de Natal, o impacto disso sobre o orçamento, as mais diversas confraternizações com pessoas que muito pouco convivemos durante o ano todo (o que não significa que não sejam queridas), a reunião da família para a noite de Natal, o menu da ceia, a divisão (ou concentração) de tarefas, o encontro para tirar os papéis do amigo secreto, a programação das férias, a escolha entre a praia ou o interior, a ficha que cai do calor que enfrentaremos porque não sobrou dinheiro para a compra do ar condicionado, o suspense e a tensão até saber se o filho passou de ano no colégio, passou no vestibular, passou de ano na faculdade, vai conseguir notas para se formar, as festas de formatura de filhos, sobrinhos e afins, a apresentação do teatro da escola, do curso de música, a compra antecipada do peru (vai que acabe), marcar horário na manicure para o dia 24… Nossa, e o Réveillon? A procura por hotéis, o preço abusivo para essa data, as opções de passar em casa, no clube, na Paulista, o desejo de pular as sete ondas, o trânsito na estrada para a praia, os fogos que eu queria tanto ver, o congestionamento nas areias de milhares de pessoas envoltas em roupas brancas, as simpatias que seria bom fazer, o champanhe, aquele presentinho curinga para quem eu esqueci de colocar na lista, a postagem nas redes sociais desejando o bem para os amigos (ufa, que bom que os cartões de Natal foram substituídos e eu não preciso ficar na fila dos Correios), e o tempo a ser gasto pensando se eu esqueci de alguma coisa……

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Percebe como Dezembro é singular? Não dá para ficar indiferente a ele!! Não dá para não olhar para trás e pensar que, apesar de todas as inúmeras crises internas e externas que 2016 trouxe, sobrevivemos!!!!! Que depois de tanta correria virá uma pausa, um break nas brisas de Janeiro, um desacelerar, dormir até mais tarde, tomar sol (vamos abstrair as tempestades), ler aquele livro que está separado (abstraia também os IPs da vida, IPTU, IPVA), relaxar…

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Então respire fundo, faça um alongamento, e diga para Dezembro que ele pode vir, que venha, estamos prontas para ele!

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Segundo tempo, novas escolhas

Lembram-se quando estávamos na faculdade? Na passagem do primeiro para o segundo semestre acabávamos refazendo algumas escolhas, puxando algumas matérias, deixando outras para depois, reorganizávamos o horário e planejávamos um semestre um pouco diferente; vamos traçar um paralelo entre essa situação e o momento que estamos vivendo?

No primeiro semestre da entrada na vida adulta (ou até antes disso) fizemos uma série de escolhas que, acreditávamos, seria para o resto de nossas vidas. Escolhemos a faculdade que nos levaria ao exercício da profissão sonhada, escolhemos o companheiro ao lado de quem viveríamos e envelheceríamos, a cidade onde moraríamos, o círculo de amigos, o tipo de lazer e tantas outras escolhas. Quando ainda somos calouros em relação à vida costumamos imaginar que nossa existência acontecerá em um movimento contínuo de ascensão, afinal nos conhecemos e sabemos o que desejamos.

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A vivência ao longo do tempo tende a desconstruir essas certezas; vamos nos dando conta que dentro de nós habita um ser praticamente desconhecido, um enigma que nos desafia e, tal qual a esfinge no mito de Édipo, provoca-nos: decifra-me ou devoro-te!! Esse “eu” vai revelando-se aos poucos, brinca de esconde-esconde, é multifacetado, composto de luz e sombras, ambivalente, intenso. A cada estação da vida nos mostra uma face, pleiteia buscas diferentes, anseia por novas experiências; quando ainda estamos envolvidas com muitos papéis, como a profissional em começo de carreira, a mãe de filhos pequenos, a responsável por cumprir inúmeras obrigações do dia a dia, temos que sufocar a voz desse eu toda vez que ela não estiver de acordo com a lista das responsabilidades que assumimos.

Todavia o tempo passa, a carreira se consolida de alguma maneira, os filhos crescem, ganham asas, voam. Já não somos mais tão imprescindíveis na vida do outro, já há espaço entre nós por onde os ventos da vida circulam. Já é tempo de nos voltarmos para as necessidades que brotam de dentro de nós. Sabem todos aqueles projetos que foram adiados, os sonhos que talvez sequer tenhamos ousado sonhar, o tempo que não tínhamos ou a permissão interna que não nos concedemos para fazer o que queríamos? Pois é, a hora é essa!

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A descrição do mundo, com seus atrativos e suas urgências, já nos seduziu e nos fascinou o suficiente; já acreditamos um número incontável de vezes que a felicidade estava nos aguardando em algum canto fora de nós, e corremos feito loucas para encontrá-la. Quantas vezes a vontade do outro colocou-se soberana sobre a nossa vontade, e nem sempre à nossa revelia, pois acreditávamos que isso poderia nos fazer feliz? E talvez tenha feito mesmo, naquele momento isso era importante.

Mas e agora? O que de fato é importante? Vamos nos reavaliar? Quais as nossas prioridades e desejos? O que nossa alma anseia por experimentar? Que dívidas contraímos com nossa criança interior?      

É tempo de olharmos para nós mesmas e nos presentearmos com todas as promessas que ficaram embrulhadas, esperando o momento de serem abertas e realizadas. É tempo de refazer as escolhas, manter o que ainda tem significado, mudar a rota do que não nos atende mais. Vamos ousar, abrir as asas e alçar voo, vamos nos permitir a liberdade de experimentar novos sabores, novos perfumes, novos encantamentos. A vida está sempre pronta a nos surpreender.

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Você já encontrou sua tribo?

Faço parte de um grupo de estudos transdisciplinares. Esse grupo surgiu há alguns anos dentro de uma universidade, entre professores interessados em adquirir conhecimentos diversos. Depois migrou para fora da instituição, e hoje nos reunimos semanalmente no espaço de um amigo querido que participou da fundação desse grupo e que o coordena, muito embora sejamos todos responsáveis por ele.

De fato é um grupo transdisciplinar; na primeira hora fazemos meditação intercalada com sugestões dos participantes, seja dança, movimentos corporais, alguma criação artística. Depois fazemos a leitura de um livro escolhido pelo grupo e, cada parágrafo lido, abre espaço para a discussão, tudo com muito humor e muitas risadas.

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Mas o que mais me encanta nesse grupo é a afinidade e a amorosidade, de tal maneira que as quintas-feiras, que é o dia do nosso encontro, acabam sendo especiais. Sentamos em círculo, nos olhamos nos olhos, falamos sobre a vida e o viver, trocamos impressões e afeto; me sinto como uma velha índia que junta-se à sua tribo.

Durante a vida cruzamos com um grande número de pessoas com quem compartilhamos o tempo. Já nascemos inseridos dentro do grupo familiar; depois, ao entrarmos na escola, passamos um longo período com outras crianças que também foram lá colocadas, e naturalmente nos aproximamos de algumas com quem temos afinidades. Depois vem o grupo da faculdade, do estágio, do trabalho, o grupo social, o dos vizinhos, dos colegas de profissão, dos pais dos amigos dos filhos e assim por diante. Próximos ou não, aprendemos a administrar essas relações. Às vezes temos sorte de conviver com pessoas que agregam, às vezes não.

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Depois de percorrer a maratona dos primeiros cinquenta anos, vencidas algumas centenas de obstáculos, conquista-se a possibilidade de desenvolver um olhar novo e diferente sobre nós mesmos e a vida. Parece que há uma apuração do paladar emocional e energético, e já não nos interessa estar com pessoas que não nos toquem e que não possam ser por nós, tocadas.

Há um desejo de trocas mais intensas e profundas que nos ajude a desconstruir armaduras, a abandonar as armas da retórica e das argumentações convictas. Há uma necessidade de calma, de degustar o olhar do outro, sentir sua respiração, silenciar a própria voz para poder ouvir. Já pouco

interessa o embate, a queda de braço, o competir e triunfar sobre; a alma pede por aconchego e partilha.

Businessman drawing a circle around people icons - Marketing and consumer target groups concept

Permita-se encontrar sua tribo, mantenha-se longe das pessoas chatas e barulhentas, dos personagens do baile de máscaras, com quem muitas vezes rodamos na pista por um longo tempo, de uma maneira totalmente automática e entediada. Se dê ao direito e ao prazer de estar rodeado por gente que é fruto das escolhas do seu coração, irmãos e irmãs de alma, amigos com quem você possa exercitar-se como ser humano e aprimorar-se nessa categoria.

Depois de tantos tropeços pela experiência adquirida é hora de resignificar relações, restabelecer vínculos , encontrar a si mesmo e ao outro. Encontro é transformação, mudança. E tudo que está vivo cresce e se transforma!

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