A aceitação da não perfeição

Talvez seja um resquício da infância, de toda ela, de cabo a rabo. Somado, claro, ao período da adolescência e da pós adolescência também. Refletindo melhor, podemos dizer que na vida adulta igualmente se faz presente e, se bobearmos, vamos encontrá-la esparramada na velhice, com tons de rabugice que só a tornam mais caracterizada. A que estou me referindo? Aquilo que fazemos a vida inteira, entre um leve despertar e outro: a busca pela perfeição. Somos seres costurados por idealizações e modelos de toda a sorte e neles a perfeição reside, é a fibra que sustenta esse tecido. O conteúdo idealizado não sobreviveria se a perfeição não lhe servisse como alma. Casamento perfeito, a perfeição como ideia e busca e a idealização como seu invólucro.  

Ah, pobres de nós, meros mortais, que desperdiçamos o pouco tempo que temos neste planeta e o usamos mais para reclamar das imperfeições do que para viver as possibilidades. O bolo estava bom, mas se tivesse crescido um pouco mais ficaria melhor. O dia estava bonito, mas o vento enjoava, despenteava o cabelo. O curso foi bom, pena que a sala era tão apertada. A viagem foi bem legal, mas devíamos ter escolhido outro hotel. Gostei do carro novo, mas lamento que não seja mais silencioso. As roupas daquela loja são bonitas e baratas, mas não duram nada! As roupas daquela outra loja são maravilhosas, mas você já viu o preço? Gostaria de morar lá, mas é longe de tudo! Até gosto do meu bairro, mas é tão barulhento… 

Alguém se reconhece? A coisa complica ainda mais quando o fantasma da perfeição, feito assombração, ronda as relações que estabelecemos com o outro, com o mundo. Por vezes, ele nos encara, nos deixando apavorados por não nos sentirmos boas o suficiente para merecer estar ali. Mais hora, menos hora, ele, o outro, vai perceber que eu nem sou tão inteligente, ou bonita, ou interessante. Que eu nem entendo tanto desse assunto. Acho que ele pensa que sou legal porque não me conhece direito… Pensa que eu sou perfeita? Ah, não me viu brava, despenteada, com fome, com sono.

Por vezes, o fantasma da perfeição ronda o outro, aquele com quem nos relacionamos. Sabe meus filhos?  São muito legais, mas você não tem noção do trabalho que me dão, do tanto que são bagunceiros e distraídos e folgados e bla bla bla… Aquela minha amiga de infância? É muito próxima, mas tem umas manias que vou te contar… Os vizinhos parecem simpáticos, mas outro dia me cumprimentaram de um jeito meio esquisito, sabe? 

E lá vamos nós, tropeçando pela vida, nos enredando em nossos julgamentos, atados às frustrações de não termos alcançado o que idealizamos… E mal percebemos tudo o que temos vivido, aprendido, trocado com o outro. Há pouco espaço interno para a gratidão, para o reconhecimento da graça que é nossa experiência pessoal no aqui  e no agora.

Sei não, desconfio que a aceitação da não perfeição é um salto para a conquista da felicidade, da alegria, do prazer de viver, mesmo nos dias nublados, ou ensolarados demais ou chuvosos ou muito secos. Viver o possível já é um milagre!

  

Verdade, meia verdade e Drummond

A eleição de hoje é um marco na história do nosso país, um marco sombrio, como se um pote de tinta escura tivesse sido derramado sobre a nação brasileira. Pensando bem, essa mancha escura que entrou nas famílias, penetrou nos vínculos, ergueu muros e criou distancias entre pessoas, talvez não tenha sido obra externa. O gatilho veio de fora, o estopim foi aceso pela politica, mas a fogueira de vaidades arde dentro de cada um de nós. Me dou conta que os discursos pessoais empatam, senão superam. os discursos dos candidatos no que eles têm de pior, que é a separatividade. Voltamos à Idade Média, ao radicalismo e à intolerância de quem acredita que a sua forma de pensar é a correta, que a sua maneira de olha o mundo é a acertada e de que dá para separar o bem do mal na peneira das emoções, como as mulheres antigamente separavam os grãos de feijão das pedras, na peneira da cozinha. Ao olharmos para essa complexidade de forma tão simplista, corremos o risco do julgamento fácil, da certeza absoluta, da ilusão de que temos a garantia de que esta ou aquela escolha é o que vai nos salvar ou nos afundar de vez enquanto sociedade. Será?

Minha intenção, ao escrever este texto, passa longe de uma análise ou defesa de um determinado posicionamento político, não tenho competência para isso. Minha proposta é nos voltarmos um pouco para dentro de nós, de recapitularmos a maneira como temos nos colocado frente a esse caos, seja por palavras, julgamentos, ações ou omissões. O que mais me assusta no desenrolar de todo esse processo é a certeza que as pessoas parecem ter de que elegeram o “lado bom da força” e que, portanto,  quem está do outro lado, quem fez um escolha diferente , é inimigo e como tal deve ser tratado.  Não me identifico com a retaliação e separação do todo em partes, o certo e o errado, o bem e o mal, o herói e o bandido; de lobo e de cordeiro todos temos um pouco. A divisão nos enfraquece, nos torna vulneráveis aos nossos próprios pecados, como a arrogância, o ódio, a soberba, a clareza que cega, o poder de deter a verdade.

Ainda bem que temos a poesia e que, em momentos de aridez e histeria coletiva, podemos abrir um poema, mergulhar nele e recuperar um pouco de paz, não é mesmo Drummond?

” A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil da meia verdade.

E a segunda metade voltava igualmente com meio perfil.

E os perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia em seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”

Verdades.

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Minimalismo

Fui atraída pelo assunto Minimalismo após ler blogs de moda que tratavam sobre consumo excessivo e ter ficado refletindo sobre a grande relevância desse assunto. Daí que me empenhei na leitura de diversos textos que tratam do tema Minimalismo. Até porque de compras eu entendo: quem não ficou exultante por voltar para casa carregada de sacolas? E quem não sofreu a ressaca moral resultante do gasto excessivo e dos erros em compras por impulso?

Então… Vamos ao minimalismo…

O interesse por algo diferente do comum, do cotidiano, não acontece do nada: alguma coisa deve estar mudando em você, ou lhe incomodando, criando a necessidade de transformação, de outro enfoque.

No meu caso, vejo que duas correntes complementares causaram isso: meu amor por organização + o desagrado com a maioria das compras de roupas que eu vinha fazendo.

O método de Marie Kondo ajudou a destralhar meu guarda-roupa e escritório. No entanto, ainda falta… Sinto que posso fazer melhor, que há mais a ser retirado das estantes.

E a quantidade absurda de roupas que foi removida do armário, muitas delas sem uso, fez com que eu tivesse de encarar de frente que meus hábitos de consumo estavam equivocados [para falar o mínimo].

Ou seja: cansei de lutar para manter a organização e cansei de gastar dinheiro à toa.

Solução encontrada: conhecer melhor, e mais de perto, o Minimalismo.

O que posso lhes dizer de pronto é que Minimalismo não é viver com um número x de objetos ou roupas, nem se recusar a comprar.

Não há radicalismo nessa ideologia: você a molda de acordo com sua necessidade e seus objetivos. 

Mas será necessário alterar sua mente para as compras: só peças muito boas, bem escolhidas (checar caimento, costuras, tecido), de itens que você precisa, ao invés de compras por prazer/impulso, resultando em muitas sacolas nas mãos, pouco agregando no guarda-roupa.

A META é reduzir os pertences ao essencial, ao simples, para que, com menos entorno, possamos nos dedicar às coisas que realmente importam: busca da realização pessoal, amizades, hobby, tempo extra, etc. [ao seu gosto].

Escolhi começar pelo Project 333: Como meu maior problema é, de longe, o acúmulo de roupas, a opção lógica é atacar isso primeiro. E o Projeto 333 fornece um caminho previamente testado para isso.

O que me deixou mais inspirada foi a frase:

“It’s so nice to wear your favorite things everyday.” Já pensou nisso? Usar somente coisas que ficam ótimas no seu corpo, sem deixá-las guardadas, esquecidas, ou esperando uma “ocasião” para saírem do armário?

A ideia de 33 itens por 3 meses não nos serve muito bem pois é pensada para países onde as estações do ano são bem definidas: ou seja, você praticamente “troca” de guarda-roupa a cada 3 meses, conforme o clima.

Já aqui, principalmente em SP-Capital, você tem que ter de tudo um pouco pois pode estar fazendo 32°C hoje, com um sol de rachar, e amanhã estar 15°C e chovendo.
Olhando as fotos dos guarda-roupas de pessoas que estão no projeto por aqui, me fez ver que é viável passar com 33 peças de roupas, mesmo num clima louco como o nosso.

Outra preocupação minha era quanto à escolha das cores dessas roupas: como as peças devem combinar entre si para permitir usos de formas diferentes, vi muitas cápsulas só em preto, branco e cinza. E eu sou uma pessoa de cores! E peças dramáticas! #comofaz?

Olhando o Pinterest do projeto vi exemplos de que é possível montar seu pequeno armário usando diversas cores.Check out the P333 Community Pinterest Board

O planejamento será:

  1. Montar um armário cápsula com cerca de 33 peças e retirar as demais de circulação por um mês. Usar somente as escolhidas por 30 dias e em seguida fazer as alterações necessárias para o próximo mês.
  2. Não comprar [roupas, revistas, livros, decoração] durante esses 30 dias.

Não pretendo excluir nada do guarda-roupa nesse primeiro momento. Após trabalhar sobre essa experiência, ficará fácil de ver o que é realmente do meu gosto e o que permaneceu encostado. Aí será a hora de fazer a exclusão de itens.

Para evitar tentações, descadastrei todas as newsletters de lojas e sites de compras. Sem receber emails contendo fotos e ofertas de novidades, não surge a vontade de clicar em algo e acabar comprando.

Estou animada no mesmo grau em que estou receosa.

PS: 2015 é a data original deste post, para o Blog Pílulas de Moda. Hoje ele foi inteiramente revisto, e o tema continua tão relevante como antes.

PS 2018: Deu tudo tão certo que agora não largo mais esta filosofia de tentar ter o essencial, não acumular (o que costumamos fazer para tentar preencher um vazio existencial). Testei o Projeto 333 e, incrivelmente, ele dá super certo. Hoje não faço mais essa programação rígida, porém ela foi importantíssima no começo. E sigo fazendo poucas compras.

Fácil, fácil, não é. Mas vale a pena.

Férias

Estou de férias, fora da cidade e da rotina, fora das preocupações e do trabalho. Estar em férias é fazer um rasgo no tempo e viver a atemporalidade, é despir-se dos personagens e mergulhar no ócio criativo.

Mas gostaria de deixar para vocês um poema de Mia Couto, autor que gosto muito.

Semana que vem estou de volta!

                   Mudança de Idade

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

No livro “Tradutor de chuvas”

Dia de Poesia

Affonso Romano é mineiro, escritor, poeta, e na década de 60 participou do movimento de vanguarda literária. É autor do livro “A Mulher Madura”, de onde foi extraído o texto abaixo.

O olho da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

(15.9.85) Affonso Romano de Sant’Anna