Vida e Espiritualidade

Ariano Suassuna, um homem de sensibilidade refinada, grande dramaturgo, poeta e professor paraibano, em uma das suas entrevistas já no final da vida, foi questionado se acreditava em Deus.

“Eu não conseguiria viver com essa visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo: ou existe Deus ou a vida não tem sentido nenhum”; essa foi sua resposta. Admiro-o pela extensão de sua obra e me identifico  com suas ideias; ou existe um propósito maior que permeia a vida cotidiana, ou a existência carece de sentido.

No sobe e desce da emoções e dos eventos o frio na barriga é constante. A vida se parece com uma grande e interminável montanha russa, feita de arrancadas brusca, subidas íngremes e descidas vertiginosas.  Mal termina um looping, começa outro. E vira e mexe, o mundo parece estar de cabeça para baixo. Ou, pelo menos, é assim que o vemos. No intervalo entre a primeira e a última respiração, rolamos de um ciclo para outro. Haja flexibilidade para vivenciar o que cada ciclo representa!

Mas, mais do que flexibilidade, haja confiança mo processo, haja fé no propósito oculto em cada momento, haja entrega para viver e disposição para aprender as lições propostas, de tal maneira que não seja necessário repetir as experiências. E haja desapego para soltar o que foi vivido e passar para o capítulo seguinte.  Quantas vezes ficamos presas na dor que vivenciamos e que carregamos junto, reeditamos diariamente e dessa forma, ela parece não ter fim.  Também fazemos isso com as experiências boas que já passaram, que poderiam ser guardadas apenas com sentimento de gratidão, mas que também queremos tomar de volta, como se fosse possível nos alojar nelas.

Vida é movimento, é rajada de vento,  é a impermanência como desafio a ser aceito e elaborado. É estrada longa a ser percorrida,  com o inesperado que se descortina atrás de cada curva.  Ora deslizamos sobre o asfalto macio, sem grandes solavancos, com uma sensação de prazer que  nos autoriza a nos encantarmos com a paisagem, observando cada detalhe, cada nuance de cor. Ora transitamos pela estrada de terra,  cheia de buracos, onde é imprescindível estar atenta para passar por eles sem atolar, sem “quebrar”, vislumbrando que mais para frente estaremos novamente no asfalto. 

Sentir a presença do Divino nessa jornada é a grande possibilidade de resignificá-la, de suportar dores e pressões sem perder de vista o cenário maior e mais amplo. É a oportunidade de sentir-se amparada quando tudo estremece, quando o chão  parece desintegrar-se sob nossos pés. E para isso é preciso conectar-se com a divindade que habita em cada um de nós. com a centelha que trazemos no coração,  o registro da filiação.  Esse conectar-se nos transporta à energia amorosa do Criador e nela podemos nos fortalecer!

“Você pensa e fala demais. Deixe de falar sozinho.”

“- Você fala sozinho demais. Não é só você que faz isso. Nós todos o fazemos. Temos diálogos internos. Pense nisso. Sempre que você está só, o que você faz?

– Converso comigo mesmo.

– Sobre o que conversa consigo?

 – Não sei, sobre qualquer coisa, imagino.

– Vou lhe dizer a respeito de que conversamos conosco. Conversamos sobre nosso mundo. Na verdade, conservamos nosso mundo com nossos diálogos internos.

– Como o fazemos?

– Sempre que terminamos de falar conosco, o mundo está sempre como devia ser. Nós o renovamos, o animamos com vida, o mantemos com nosso diálogo interno. Não é só isso, mas também escolhermos nossos caminhos ao conversarmos conosco. Assim, repetimos as mesmas escolhas várias vezes até o dia da nossa morte, pois ficamos repetindo o mesmo diálogo interno a vida toda, até o fim. Um guerreiro sabe disso e procura parar de falar. Esse é o último item que você tem que aprender se quiser viver como um guerreiro.”

Uma Estranha Realidade”, Carlos Castaneda

Segundo dom Juan, homem de conhecimento, profundo conhecedor da tradição tolteca e mestre de Carlos Castaneda, o diálogo interno é aquilo que conserva nosso mundo da forma com ele é. Embora surpreendente a princípio, a declaração de dom Juan é de uma lucidez cristalina. Pois não vivemos hoje em um mundo onde os problemas psiquiátricos atingiram uma proporção nunca antes vista?

Segundo o neuropsicólogo americano Rick Hanson nosso cérebro capta as experiências negativas com maior intensidade do que as positivas. Assim, se ouvirmos 10 elogios e um crítica durante o mesmo dia, a crítica ficará mais presente no cérebro. E aí, lá vamos nós conversando obsessivamente conosco.

Somos todos meio vítimas do falar incessante da nossa mente, que compulsivamente nos fazer rememorar fatos, ansiar pelo momento seguinte, ou listar tudo o que devemos fazer, ser ou parecer. É quase uma máquina cujo botão para desligar é inexistente.  Nosso diálogo interno vai recriando nosso mundo, repetindo as angústias, reafirmando crenças. Fica a pergunta: Que mundo estamos criando e recriando através dessa mente falante?

E é nesse contexto que meditações, técnicas tais como Mindfulness (atenção plena) começam a ser cada vez mais praticadas, estudadas e respeitadas. Vários hospitais americanos estão utilizando a meditação para prevenir recaídas depressivas e algumas escolas já integraram a prática meditativa como um meio para melhorar a concentração.

Além disso, fiquei agradavelmente surpresa ao saber que o especialista Christophe André apresentou nesta semana, no dia 12, uma conferência sobre a meditação na Assembleia Nacional francesa.

O pensamento criativo, ideias novas, inspiração surgem quando estamos presentes. A fala contínua e repetitiva da mente estressada só causa incômodo. Em vista de tudo isso, deixo as palavras de dom Juan a título de lembrete:

“- Você pensa e fala demais. Deve parar de falar sozinho.”