“Você pensa e fala demais. Deixe de falar sozinho.”

“- Você fala sozinho demais. Não é só você que faz isso. Nós todos o fazemos. Temos diálogos internos. Pense nisso. Sempre que você está só, o que você faz?

– Converso comigo mesmo.

– Sobre o que conversa consigo?

 – Não sei, sobre qualquer coisa, imagino.

– Vou lhe dizer a respeito de que conversamos conosco. Conversamos sobre nosso mundo. Na verdade, conservamos nosso mundo com nossos diálogos internos.

– Como o fazemos?

– Sempre que terminamos de falar conosco, o mundo está sempre como devia ser. Nós o renovamos, o animamos com vida, o mantemos com nosso diálogo interno. Não é só isso, mas também escolhermos nossos caminhos ao conversarmos conosco. Assim, repetimos as mesmas escolhas várias vezes até o dia da nossa morte, pois ficamos repetindo o mesmo diálogo interno a vida toda, até o fim. Um guerreiro sabe disso e procura parar de falar. Esse é o último item que você tem que aprender se quiser viver como um guerreiro.”

Uma Estranha Realidade”, Carlos Castaneda

Segundo dom Juan, homem de conhecimento, profundo conhecedor da tradição tolteca e mestre de Carlos Castaneda, o diálogo interno é aquilo que conserva nosso mundo da forma com ele é. Embora surpreendente a princípio, a declaração de dom Juan é de uma lucidez cristalina. Pois não vivemos hoje em um mundo onde os problemas psiquiátricos atingiram uma proporção nunca antes vista?

Segundo o neuropsicólogo americano Rick Hanson nosso cérebro capta as experiências negativas com maior intensidade do que as positivas. Assim, se ouvirmos 10 elogios e um crítica durante o mesmo dia, a crítica ficará mais presente no cérebro. E aí, lá vamos nós conversando obsessivamente conosco.

Somos todos meio vítimas do falar incessante da nossa mente, que compulsivamente nos fazer rememorar fatos, ansiar pelo momento seguinte, ou listar tudo o que devemos fazer, ser ou parecer. É quase uma máquina cujo botão para desligar é inexistente.  Nosso diálogo interno vai recriando nosso mundo, repetindo as angústias, reafirmando crenças. Fica a pergunta: Que mundo estamos criando e recriando através dessa mente falante?

E é nesse contexto que meditações, técnicas tais como Mindfulness (atenção plena) começam a ser cada vez mais praticadas, estudadas e respeitadas. Vários hospitais americanos estão utilizando a meditação para prevenir recaídas depressivas e algumas escolas já integraram a prática meditativa como um meio para melhorar a concentração.

Além disso, fiquei agradavelmente surpresa ao saber que o especialista Christophe André apresentou nesta semana, no dia 12, uma conferência sobre a meditação na Assembleia Nacional francesa.

O pensamento criativo, ideias novas, inspiração surgem quando estamos presentes. A fala contínua e repetitiva da mente estressada só causa incômodo. Em vista de tudo isso, deixo as palavras de dom Juan a título de lembrete:

“- Você pensa e fala demais. Deve parar de falar sozinho.”