Passagens

2018 está de partida, acaba de dobrar a última curva e já vai desaparecendo na estrada, deixando em cada um de nós sensações  diferentes. É interessante fazer um recorte no tempo e observar tudo que acontece em um determinado período; quando se trata de uma recapitulação de um ano inteiro o desafio é grande, sabem por que? Porque o tempo linear, cronológico, que é mensurado pelo relógio de pulso, pelo calendário pendurado na parede da cozinha, pela tela do celular, pelas páginas da agenda, esse tempo não só comporta as quatro estações, não só contempla todas as vezes nas quais o sol nasce e se põe, mas também comprime e dilata rendendo-se à vastidão da experiência humana.

Tenho a impressão que ao término do ano costumamos fazer uma retrospectiva baseada nos eventos externos (quem nasceu ou morreu, quem casou ou separou, quanto dinheiro foi ganho ou perdido, quantas viagens foram ou não realizadas, e por aí vai) devido à nossa incapacidade de perceber e dimensionar todos os movimentos internos que aconteceram durante esse período de 365 dias que está prestes a findar no dia 31, feito sol que se apaga por detrás das montanhas. Tudo que foi experimentado e vivenciado, de forma consciente ou inconsciente, parece formar o desenho de uma lemniscata, o símbolo do infinito que representa o equilíbrio dinâmico e rítmico entre pares de opostos, a eternidade, a divindade, o que não tem começo nem fim, ou seja, não possui um ponto de partida ou de chegada.

A origem da lemniscata remete ao Ouroboros, a serpente da mitologia grega que é representada devorando sua própria cauda, sugerindo a ideia do que não principia nem acaba, de tudo que eternamente está sendo recriado no Universo.

Me causa estranheza imaginar que somos Ouroboros e que o tempo é ferramenta que nos permite criar e recriar nossas histórias e aprendizados neste momentum, no aqui e no agora. Entra ano, sai ano, somos convidadas a participar dessa experiência ampla e irrestrita que é a vida, como se fôssemos jovens perplexas adentrando o grande salão de baile. Não há como adivinhar qual vai ser o ritmo tocado, que notas darão o tom. Tão pouco se encontraremos pares adequados ou se dançaremos sozinhas, se acertaremos ou não o passo; ou em que momentos seremos motivadas pelo entusiasmo ou derrubadas pelo cansaço. Não há como prever se seremos empurradas pela percussão ou conduzidas pela leveza das cordas, se arrastaremos o pé ou flutuaremos pelo amplo salão.

Entretanto é possível constatar que somos sim convidadas, que a cada ciclo a festa recomeça e que chegará um dia onde a faremos em outro lugar. A palavra festa não representa apenas alegria ou comemoração, mas também indica solenidade, bom acolhimento, cuidados. Cada ano que desponta é um convite da vida e do tempo, uma sugestão de participar do baile com coragem; essa palavra, coragem, vem da raiz latina cor que significa coração.

Que em 2019 possamos agir com o coração, enfrentar os medos, expor-se aos riscos. E que possamos cuidar de nós com amor e dedicação; não é o mundo que deve mudar, somos nós. Você se transforma e seu mundo se transforma, sejamos o que desejamos que o ano nos traga!

A reta final

Pronto, estamos em Dezembro! Último mês do ano, porta de saída para a mudança do calendário anual, repleto de datas comemorativas oficiais e não oficiais. As festas natalinas e o final de um ciclo, por nós humanos determinado, nos leva à compulsão pelos encontros, pelas comemorações com todas as pessoas que vimos muito ou com quem mal cruzamos durante o ano.

Também nos leva à preocupação em decorar a casa para as festas, sair às compras para presentear tanto as pessoas queridas como também àquelas com quem nos sentimos na obrigação, devemos favores, temos gratidão ou desejamos agradar por qualquer razão. O trânsito piora, os centros comerciais ficam lotados, a vaga para estacionar o carro torna-se mais uma preocupação. É o momento onde o poder hipnótico de sedução do consumismo sobre nós atinge seu ponto alto, com tantos bazares natalinos esparramados pela cidade e sua diversidade de produtos, sabores, cores, todos muito atraentes. Além, claro, do comércio tradicional e suas inúmeras ofertas embaladas por sons, luzes, apelos estéticos, emocionais e econômicos; como resistir a tudo isso?

Há a preocupação com a preparação da Ceia de Natal e tudo que isso implica, desde quem estará presente até a prévia organização do menu e todas as compras necessárias para levá-lo a cabo. Há também a necessidade de definir o Réveillon, as férias de verão, a reserva de hotéis, passagens aéreas ou a programação por carro, os dias nos quais estaremos fora da cidade. 

E tudo isso acompanhado pela rotina diária que, inconsciente dessa movimentação extra, se mantém presente, firme e forte, sem atenuantes! Pelo contrário, quem trabalha sempre tem coisas a mais para entregar antes do final de ano, dar fim às pendências e ainda participar das diversas confraternizações ligadas ao profissional. Isso sem falar nas apresentações escolares de sobrinhos, priminhos, dos convites de formatura que brotam nessa época feito mato no pasto.

Tudo isso acontece sobre o pano de fundo do desgaste dos onze meses que precederam este momento, que foram por nós vividos em sua plenitude, com alegrias e tristezas, prazeres e frustrações, ganhos e perdas, chegadas e partidas, no pulsar intermitente da vida. O aprendizado tem seu preço, o desapego tem suas demandas, os sustos nos deixam com uma sensação de que nem sempre tivemos a quantidade de ar nos pulmões suficiente para respirarmos confortavelmente… e o prenúncio da falta que se fará ainda mais ruidosa, nessas datas festivas, dos que não estão mais aqui fisicamente, mas trazemos presentes no coração.

É minhas amigas, a vida não é para amadores não! Isso significa que ela é tão bela e tão complexa, nos provoca, nos instiga a tantos aprendizados que precisamos manter “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” para vivê-la em sua totalidade.

Felizmente já atravessamos meio século da existência e, com águas mais agitadas beirando o maremoto ou mais tranquilas assemelhando-se à superfície de um lago, desenvolvemos musculatura emocional e mental, percepções, compreensões e garra que nos permitem atravessar Dezembro com a alegria sobrepondo-se ao cansaço, a vontade que não se rende às dificuldades, e o amor que sentimos e que transborda, tornando mais suave o nosso caminhar.

“Você pensa e fala demais. Deixe de falar sozinho.”

“- Você fala sozinho demais. Não é só você que faz isso. Nós todos o fazemos. Temos diálogos internos. Pense nisso. Sempre que você está só, o que você faz?

– Converso comigo mesmo.

– Sobre o que conversa consigo?

 – Não sei, sobre qualquer coisa, imagino.

– Vou lhe dizer a respeito de que conversamos conosco. Conversamos sobre nosso mundo. Na verdade, conservamos nosso mundo com nossos diálogos internos.

– Como o fazemos?

– Sempre que terminamos de falar conosco, o mundo está sempre como devia ser. Nós o renovamos, o animamos com vida, o mantemos com nosso diálogo interno. Não é só isso, mas também escolhermos nossos caminhos ao conversarmos conosco. Assim, repetimos as mesmas escolhas várias vezes até o dia da nossa morte, pois ficamos repetindo o mesmo diálogo interno a vida toda, até o fim. Um guerreiro sabe disso e procura parar de falar. Esse é o último item que você tem que aprender se quiser viver como um guerreiro.”

Uma Estranha Realidade”, Carlos Castaneda

Segundo dom Juan, homem de conhecimento, profundo conhecedor da tradição tolteca e mestre de Carlos Castaneda, o diálogo interno é aquilo que conserva nosso mundo da forma com ele é. Embora surpreendente a princípio, a declaração de dom Juan é de uma lucidez cristalina. Pois não vivemos hoje em um mundo onde os problemas psiquiátricos atingiram uma proporção nunca antes vista?

Segundo o neuropsicólogo americano Rick Hanson nosso cérebro capta as experiências negativas com maior intensidade do que as positivas. Assim, se ouvirmos 10 elogios e um crítica durante o mesmo dia, a crítica ficará mais presente no cérebro. E aí, lá vamos nós conversando obsessivamente conosco.

Somos todos meio vítimas do falar incessante da nossa mente, que compulsivamente nos fazer rememorar fatos, ansiar pelo momento seguinte, ou listar tudo o que devemos fazer, ser ou parecer. É quase uma máquina cujo botão para desligar é inexistente.  Nosso diálogo interno vai recriando nosso mundo, repetindo as angústias, reafirmando crenças. Fica a pergunta: Que mundo estamos criando e recriando através dessa mente falante?

E é nesse contexto que meditações, técnicas tais como Mindfulness (atenção plena) começam a ser cada vez mais praticadas, estudadas e respeitadas. Vários hospitais americanos estão utilizando a meditação para prevenir recaídas depressivas e algumas escolas já integraram a prática meditativa como um meio para melhorar a concentração.

Além disso, fiquei agradavelmente surpresa ao saber que o especialista Christophe André apresentou nesta semana, no dia 12, uma conferência sobre a meditação na Assembleia Nacional francesa.

O pensamento criativo, ideias novas, inspiração surgem quando estamos presentes. A fala contínua e repetitiva da mente estressada só causa incômodo. Em vista de tudo isso, deixo as palavras de dom Juan a título de lembrete:

“- Você pensa e fala demais. Deve parar de falar sozinho.”