A flor do deserto

Volto a escrever depois de certo tempo, passadas as férias, a quebra do ritmo, a ausência de inspiração…

Ando um tanto quanto insone, nem sei bem precisar o porquê e em uma dessas madrugadas em que fico procurando pelo sono que resolve esconder-se (embora bem saiba onde encontrá-lo durante o dia), me veio à  cabeça a flor do deserto.

A rosa do deserto é uma planta que pode alcançar até 4 metros de altura e tem uma forma diferente, com um caule muito desenvolvido na base e próprio para sobreviver nesse ambiente, já que precisa acumular água e suportar ventos fortes. Floresce em meio à aridez, em uma explosão de cores que vai do branco ao vinho, passando pelo vermelho e pelo lilás. Não depende de condições climáticas ideais para sobreviver e florir, encontra recursos em sua estrutura interna.

Acredito que todas nós somos flores do deserto, embora na maioria das vezes não tenhamos essa consciência ou percepção. Fomos domesticadas para acreditar que precisamos de certas condições externas para nos sentirmos realizadas, e ao esperar por tais quesitos que nunca chegam, acabamos invadidas por frustrações e sentimentos de fracasso. Mesmo quando conseguimos certas realizações, como um amor, sucesso profissional, lugar de reconhecimento na sociedade, ainda assim vem a frustração, porque tudo foi tão idealizado que o real não dá conta de suprir tantas projeções!

O homem que vai nos beijar e nos trazer de volta à vida só existe nos contos de fada para as princesas sofridas e desmilinguidas; o sucesso profissional que propicia a sensação de poder e até de onipotência dura até a primeira fragilidade física ou emocional, até o enfrentamento de uma enfermidade, de uma depressão. A valorização do meio social é chuva de verão, assim como vem e inunda, rapidamente passa. Passa o glamour, a juventude, as promessas de futuro; mas também passam as dores, as previsões negativas que não se cumpriram, os períodos de extrema dificuldade, as fantasias de morte, o medo de sucumbir em meio ao entulho emocional, afetivo.

Aí nos damos conta que somos a rosa do deserto, que trazemos um reservatório interno onde acumulamos as águas da vida para os períodos de extrema secura e aridez. Que nosso tronco, por onde circulam as energias que vem do céu que nos cobre e da terra que nos ancora, sabe se sustentar diante das tempestades e ventos fortes, tem a maleabilidade do bambu que se curva para não quebrar e, passado o furacão, volta a se reerguer altivo e belo.

Sim, somos terra, planta, flor, estamos neste mundo, mas somos de outro. Nosso corpo abriga uma alma que pulsa e que busca a evolução e a realização na matéria através do reconhecimento de que nascemos com os recursos que necessitamos utilizar no decorrer da vida, como a inspiração, intuição, força, amor. Trazemos incubado o poder da transformação, da alquimia interna, e despertá-lo é despertar a consciência sobre nós mesmas.

Não há mais lugar para o vitimismo e a espera passiva por algo ou alguém que nos resgate dos buracos nos quais caímos durante a vida; passado meio século de existência é impossível postergar essa descoberta, se fazer de tonta, de frágil, esperar pelo que vem de fora.

Que possamos olhar para dentro de nós, entrar em contato com essa alma que é, ao mesmo tempo, força, vida, bússola, poder, amor. Que possamos nos aliar à ela e nos aproximar de pessoas que realmente “conversem” com nossa alma e nós com as delas, para que essa ciranda viva possa nos lembrar quem somos se, por acaso, nos esquecermos.

O destino de toda flor é florescer! Que venham as primaveras onde espreguiçaremos nosso caule e abriremos nossas pétalas; os verões onde o colorido de nossas roupagens brilhará nos raios de sol; os outonos cujos ventos nos farão desfolhar; os invernos que nos deixarão desnudas. São só estações que vão e vem, se repetem no ciclo que não tem começo nem fim. O que de fato conta é o fogo e a água da qual somos feitas.

O fogo que arde em nós e nos dias frios aquece, reacende a chama da vida sempre que ela parece se apagar, regenera a saúde, transmuta as energias. A água que flui em nós, que hidrata quando parece que vamos secar, que nos faz boiar quando as ondas estão fortes, que limpa e lava todas as feridas.

Simples assim, flores do deserto.

Passagens

2018 está de partida, acaba de dobrar a última curva e já vai desaparecendo na estrada, deixando em cada um de nós sensações  diferentes. É interessante fazer um recorte no tempo e observar tudo que acontece em um determinado período; quando se trata de uma recapitulação de um ano inteiro o desafio é grande, sabem por que? Porque o tempo linear, cronológico, que é mensurado pelo relógio de pulso, pelo calendário pendurado na parede da cozinha, pela tela do celular, pelas páginas da agenda, esse tempo não só comporta as quatro estações, não só contempla todas as vezes nas quais o sol nasce e se põe, mas também comprime e dilata rendendo-se à vastidão da experiência humana.

Tenho a impressão que ao término do ano costumamos fazer uma retrospectiva baseada nos eventos externos (quem nasceu ou morreu, quem casou ou separou, quanto dinheiro foi ganho ou perdido, quantas viagens foram ou não realizadas, e por aí vai) devido à nossa incapacidade de perceber e dimensionar todos os movimentos internos que aconteceram durante esse período de 365 dias que está prestes a findar no dia 31, feito sol que se apaga por detrás das montanhas. Tudo que foi experimentado e vivenciado, de forma consciente ou inconsciente, parece formar o desenho de uma lemniscata, o símbolo do infinito que representa o equilíbrio dinâmico e rítmico entre pares de opostos, a eternidade, a divindade, o que não tem começo nem fim, ou seja, não possui um ponto de partida ou de chegada.

A origem da lemniscata remete ao Ouroboros, a serpente da mitologia grega que é representada devorando sua própria cauda, sugerindo a ideia do que não principia nem acaba, de tudo que eternamente está sendo recriado no Universo.

Me causa estranheza imaginar que somos Ouroboros e que o tempo é ferramenta que nos permite criar e recriar nossas histórias e aprendizados neste momentum, no aqui e no agora. Entra ano, sai ano, somos convidadas a participar dessa experiência ampla e irrestrita que é a vida, como se fôssemos jovens perplexas adentrando o grande salão de baile. Não há como adivinhar qual vai ser o ritmo tocado, que notas darão o tom. Tão pouco se encontraremos pares adequados ou se dançaremos sozinhas, se acertaremos ou não o passo; ou em que momentos seremos motivadas pelo entusiasmo ou derrubadas pelo cansaço. Não há como prever se seremos empurradas pela percussão ou conduzidas pela leveza das cordas, se arrastaremos o pé ou flutuaremos pelo amplo salão.

Entretanto é possível constatar que somos sim convidadas, que a cada ciclo a festa recomeça e que chegará um dia onde a faremos em outro lugar. A palavra festa não representa apenas alegria ou comemoração, mas também indica solenidade, bom acolhimento, cuidados. Cada ano que desponta é um convite da vida e do tempo, uma sugestão de participar do baile com coragem; essa palavra, coragem, vem da raiz latina cor que significa coração.

Que em 2019 possamos agir com o coração, enfrentar os medos, expor-se aos riscos. E que possamos cuidar de nós com amor e dedicação; não é o mundo que deve mudar, somos nós. Você se transforma e seu mundo se transforma, sejamos o que desejamos que o ano nos traga!

Malabaristas somos nós

Quando criança costumava assistir aos espetáculos de circo e uma das apresentações que mais chamava minha atenção era a dos malabaristas que manipulavam vários objetos com tal agilidade e precisão que era quase como se fosse uma cena mágica. Eram pratos sobre finas hastes que giravam simultaneamente, eram bolas ou malabares arremessados para cima e recolhidos pelo artista que se desdobrava para que nenhum se perdesse pelo chão; ficava boquiaberta imaginando que habilidades extraordinárias tinha aquele sujeito para conseguir tal proeza. 

Fui crescendo sem me dar conta que essa é uma habilidade treinada por todos nós, desde muito cedo, uma vez que é ferramenta imprescindível para atravessar a vida. Gosto da ideia de que somos seres espirituais vivenciando uma experiência humana e, se assim for, estamos aqui para aprender a manusear as diversas manifestações da vida que ocorrem simultaneamente, de forma aparentemente caótica. Para tanto, é necessário buscar todos os recursos adormecidos que trazemos, feito bagagem que ainda não foi aberta, desenvolvê-los para que possamos não só dar conta das demandas, mas principalmente, descobrir a força e a imensa capacidade que temos.

O circo pode ser uma analogia à própria vida e observá-la sob esse filtro pode ser interessante. A vida é um espetáculo, um momento passageiro entre o abrir e o fechar das cortinas; somos convocados a assumir vários personagens, passar por eles até atingirmos certa maestria que pode ser traduzida como ampliação da consciência, percepção do todo e da unidade. 

Não há circo sem palhaço brincalhão, divertido, que sabe de cor e salteado que tudo isso é apenas uma grande brincadeira. Não há circo sem leão e seu domador, nos mostrando que temos um aspecto selvagem, instintivo, que possui sua sabedoria ancestral e que muito tem a nos ensinar, mas que precisa ser integrado às outras esferas da personalidade, se comunicar com o todo. Há também a bailarina, o eterno feminino, união da delicadeza com a força, da graça com o movimento que encanta, cativa, seduz. O acrobata com seus movimentos quase ilimitados, a superação pela flexibilidade e determinação, pela técnica e sensibilidade, que habita as alturas mesmo sem ser pássaro, que caminha pelo fio do trapézio com confiança, porque desenvolveu seu próprio eixo, seu próprio chão, carrega a base que o sustenta dentro de si mesmo. E o malabarista, equilibrista, que lida com várias situações ao mesmo tempo, que tem um olhar para cada prato suspenso, que se esforça para não perder o ritmo, a concentração, para não permitir que o sonho de ser um com tudo que se movimenta acabe esparramado pelo chão. 

Somos todos artistas, participantes do grande espetáculo. Independente da idade cronológica que carregamos, precisamos perceber que a alegria é que faz o show acontecer, que nos permite confiar, acreditar, desafiar, superar, transcender. Rir do palhaço entendendo que eu sou ele, ele sou eu. Apenas papéis, todos importantes. Não há um mais nobre ou valoroso que o outro, mas a somatória deles faz o circo acontecer. O que eles têm em comum é o amor pelo picadeiro e o reconhecimento que sem ele, toda essa experimentação não seria possível!

Vida e Espiritualidade

Ariano Suassuna, um homem de sensibilidade refinada, grande dramaturgo, poeta e professor paraibano, em uma das suas entrevistas já no final da vida, foi questionado se acreditava em Deus.

“Eu não conseguiria viver com essa visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo: ou existe Deus ou a vida não tem sentido nenhum”; essa foi sua resposta. Admiro-o pela extensão de sua obra e me identifico com suas ideias; ou existe um propósito maior que permeia a vida cotidiana, ou a existência carece de sentido.

No sobe e desce da emoções e dos eventos o frio na barriga é constante. A vida se parece com uma grande e interminável montanha russa, feita de arrancadas brusca, subidas íngremes e descidas vertiginosas. Mal termina um looping, começa outro. E vira e mexe, o mundo parece estar de cabeça para baixo. Ou, pelo menos, é assim que o vemos. No intervalo entre a primeira e a última respiração, rolamos de um ciclo para outro. Haja flexibilidade para vivenciar o que cada ciclo representa!

Mas, mais do que flexibilidade, haja confiança no processo, haja fé no propósito oculto em cada momento, haja entrega para viver e disposição para aprender as lições propostas, de tal maneira que não seja necessário repetir as experiências. E haja desapego para soltar o que foi vivido e passar para o capítulo seguinte.  Quantas vezes ficamos presas na dor que vivenciamos e que carregamos junto, reeditamos diariamente e dessa forma, ela parece não ter fim. Também fazemos isso com as experiências boas que já passaram, que poderiam ser guardadas apenas com sentimento de gratidão, mas que também queremos tomar de volta, como se fosse possível nos alojar nelas.

Vida é movimento, é rajada de vento, é a impermanência como desafio a ser aceito e elaborado. É estrada longa a ser percorrida, com o inesperado que se descortina atrás de cada curva. Ora deslizamos sobre o asfalto macio, sem grandes solavancos, com uma sensação de prazer que nos autoriza a nos encantarmos com a paisagem, observando cada detalhe, cada nuance de cor. Ora transitamos pela estrada de terra, cheia de buracos, onde é imprescindível estar atenta para passar por eles sem atolar, sem “quebrar”, vislumbrando que mais para frente estaremos novamente no asfalto. 

Sentir a presença do Divino nessa jornada é a grande possibilidade de resignificá-la, de suportar dores e pressões sem perder de vista o cenário maior e mais amplo. É a oportunidade de sentir-se amparada quando tudo estremece, quando o chão  parece desintegrar-se sob nossos pés. E para isso é preciso conectar-se com a divindade que habita em cada um de nós, com a centelha que trazemos no coração, o registro da filiação. Esse conectar-se nos transporta à energia amorosa do Criador e nela podemos nos fortalecer!

Dia das Eleições

Hoje é domingo, dias das eleições, e há, na atmosfera, um clima esquisito. Democracia deveria pressupor liberdade de expressão, respeito, tranquilidade, mas infelizmente não é isso que temos vivido.

Resolvi compartilhar com vocês uma lenda xamânica que me parece extremamente propícia para o dia de hoje, e para todos os outros dias das nossas vidas…

“Há muito tempo atrás, quando os animais podiam falar uns com os outros e com os humanos, os quatro poderosos animais tiveram uma discussão. Cada um deles sentia ser o melhor chefe do Conselho dos Animais, o que causou mal estar geral. O Urso sempre havia sido o chefe, e essa posição devia-se ao fato de ser forte e capaz de tomar boas decisões entre seus irmãos e irmãs. Enquanto muitos animais entendiam que ele deveria continuar sendo o chefe do Conselho, outros achavam que deveria haver um revezamento entre os candidatos.

Um dos candidatos, o Búfalo, tomou a palavra e disse: – Eu sou o mais forte e poderoso dos animais, me doou generosamente para todos os nossos irmãos e irmãs humanos, assim como para o reino animal. Eu devo ser o chefe devido a minha pureza de propósitos e habilidade em renovaçã0.

O outro concorrente, a Águia, tomou a palavra e disse:
– Eu voo mais alto do que qualquer uma das criaturas aladas, vejo mais claramente e estou mais próxima do Grande Espírito do que qualquer outro animal deste Conselho. Em função da minha claridade e sabedoria, devo me tornar o chefe deste Conselho.

O próximo candidato que tomou a palavra foi o Coiote.
– Eu sou o mais habilidoso e malicioso entre todos os animais. Posso sobreviver em qualquer lugar e tenho a habilidade para ensinar a todos. Por trazer crescimento, devo ser o chefe.

Então o Urso tomou a palavra e disse:
– Eu tenho grande respeito por meus irmãos, mas vocês não têm motivos para me substituir. Eu os tenho atendido sempre bem, sou forte e muito bondoso em minhas decisões. Sempre penso muito antes de decidir qualquer coisa em relação a vocês, e portanto devo continuar servindo-os como sempre fiz.

Depois que os quatro animais terminaram suas falas, todos os outros animais do reino tiveram a chance de se expressarem no “Pau Falante” passado no círculo. Ficou evidente que os animais estavam divididos a respeito de quem deveria ser o chefe, e por não haver consenso instalou-se um grande mal estar, uma vez que estavam tão fortemente desagregados e sem saber o que fazer. Todos os quatro concorrentes eram poderosos e tinham o conhecimento que os qualificava para serem chefes.

De repente, os ventos começaram a soprar violentamente em todas as direções, e os animais que estavam falando ao mesmo tempo, cada um tentando provar que o seu ponto de vista estava certo e sua escolha correta, já não podiam mais ser ouvidos devido ao forte som dos ventos. Quando finalmente fez-se o silêncio, no centro do círculo apareceu um dos Espíritos Mestres sob a forma de um vigoroso homem de meia idade que tomou a palavra e disse:

– Eu sou Mudjekeewis, o Espírito Guardião do Oeste, e por onde ando, o vento me acompanha. Muito antes de vocês nascerem me tornei o Chefe dos Guardiões das 4 Direções. Somos todos filhos da mesma Mãe, e possuímos a força e sabedoria específicas de cada um de nossos pais. Ao invés de brigar sobre quem é o melhor e quebrar a Lei da Unidade, decidimos, com a inspiração de nossa Mãe, a nos responsabilizarmos, cada um de nós, por um quarto da Roda. Assim, podemos usar nossa força separadamente e tornarmos a Roda forte em todas as Direções.

Fui escolhido pelo Grande Um para intervir neste Conselho e servir como elo de ligação, porque neste momento a Lei da Unidade está em risco, e se ela for quebrada será desastroso para as relações aqui na Terra. O Grande Espírito não deseja que isso aconteça, e eu vim ajudá-los a fundir seu poder com o poder de cada uma das Direções.

Urso, você fundirá seu poder comigo, com o Oeste, pois assim como eu você é forte e pensa muito antes de falar.

Búfalo, você fundirá seu poder com o poder de Waboose, do Norte, assim compartilhará com as qualidades de pureza e renovação.

Águia, você fundirá seu poder com o poder de Wabun, do Leste, pois com sua visão clara ajudará a trazer consciência, sabedoria e iluminação.

Coiote, você fundirá seu poder com o poder de Shawnodese, do Sul, e com suas habilidades para ensinar e sobreviver, ajudará a trazer confiança e crescimento aos seres.

Então, honrados amigos, sejam felizes agora com os presentes de poder do Grande Espírito, que foi dado a cada um de vocês. Que cada um sirva da melhor maneira, na Direção que foi estabelecida, e que todos juntos possam contribuir para a harmonia da Criação.”

Namastê!