Dia das Eleições

Hoje é domingo, dias das eleições, e há, na atmosfera, um clima esquisito. Democracia deveria pressupor liberdade de expressão, respeito, tranquilidade, mas infelizmente não é isso que temos vivido.

Resolvi compartilhar com vocês uma lenda xamânica que me parece extremamente propícia para o dia de hoje, e para todos os outros dias das nossas vidas…

“Há muito tempo atrás, quando os animais podiam falar uns com os outros e com os humanos, os quatro poderosos animais tiveram uma discussão. Cada um deles sentia ser o melhor chefe do Conselho dos Animais, o que causou mal estar geral. O Urso sempre havia sido o chefe, e essa posição devia-se ao fato de ser forte e capaz de tomar boas decisões entre seus irmãos e irmãs. Enquanto muitos animais entendiam que ele deveria continuar sendo o chefe do Conselho, outros achavam que deveria haver um revezamento entre os candidatos.

Um dos candidatos, o Búfalo, tomou a palavra e disse:
– Eu sou o mais forte e poderoso dos animais, me doou generosamente para todos os nossos irmãos e irmãs humanos, assim como para o reino animal. Eu devo ser o chefe devido a minha pureza de propósitos e habilidade em renovação.

O outro concorrente, a Águia, tomou a palavra e disse:
– Eu voo mais alto do que qualquer uma das criaturas aladas, vejo mais claramente e estou mais próxima do Grande Espírito do que qualquer outro animal deste Conselho. Em função da minha claridade e sabedoria, devo me tornar o chefe deste Conselho.

O próximo candidato que tomou a palavra foi o Coiote.
– Eu sou o mais habilidoso e malicioso entre todos os animais. Posso sobreviver em qualquer lugar e tenho a habilidade para ensinar a todos. Por trazer crescimento, devo ser o chefe.

Então o Urso tomou a palavra e disse:
– Eu tenho grande respeito por meus irmãos, mas vocês não têm motivos para me substituir. Eu os tenho atendido sempre bem, sou forte e muito bondoso em minhas decisões. Sempre penso muito antes de decidir qualquer coisa em relação a vocês, e portanto devo continuar servindo-os como sempre fiz.

Depois que os quatro animais terminaram suas falas, todos os outros animais do reino tiveram a chance de se expressarem no “Pau Falante” passado no círculo. Ficou evidente que os animais estavam divididos a respeito de quem deveria ser o chefe, e por não haver consenso instalou-se um grande mal estar, uma vez que estavam tão fortemente desagregados e sem saber o que fazer. Todos os quatro concorrentes eram poderosos e tinham o conhecimento que os qualificava para serem chefes.

De repente, os ventos começaram a soprar violentamente em todas as direções, e os animais que estavam falando ao mesmo tempo, cada um tentando provar que o seu ponto de vista estava certo e sua escolha correta, já não podiam mais ser ouvidos devido ao forte som dos ventos. Quando finalmente fez-se o silêncio, no centro do círculo apareceu um dos Espíritos Mestres sob a forma de um vigoroso homem de meia idade que tomou a palavra e disse:

– Eu sou Mudjekeewis, o Espírito Guardião do Oeste, e por onde ando, o vento me acompanha. Muito antes de vocês nascerem me tornei o Chefe dos Guardiões das 4 Direções. Somos todos filhos da mesma Mãe, e possuímos a força e sabedoria específicas de cada um de nossos pais. Ao invés de brigar sobre quem é o melhor e quebrar a Lei da Unidade, decidimos, com a inspiração de nossa Mãe, a nos responsabilizarmos, cada um de nós, por um quarto da Roda. Assim, podemos usar nossa força separadamente e tornarmos a Roda forte em todas as Direções.

Fui escolhido pelo Grande Um para intervir neste Conselho e servir como elo de ligação, porque neste momento a Lei da Unidade está em risco, e se ela for quebrada será desastroso para as relações aqui na Terra. O Grande Espírito não deseja que isso aconteça, e eu vim ajuda-los a fundir seu poder com o poder de cada uma das Direções.

Urso, você fundirá seu poder comigo, com o Oeste, pois assim como eu você é forte e pensa muito antes de falar.

Búfalo, você fundirá seu poder com o poder de Waboose, do Norte, assim compartilhará com as qualidades de pureza e renovação.

Águia, você fundirá seu poder com o poder de Wabun, do Leste, pois com sua visão clara ajudará a trazer consciência, sabedoria e iluminação.

Coiote, você fundirá seu poder com o poder de Shawnodese, do Sul, e com suas habilidades para ensinar e sobreviver, ajudará a trazer confiança e crescimento aos seres.

Então, honrados amigos, sejam felizes agora com os presentes de poder do Grande Espírito, que foi dado a cada um de vocês. Que cada um sirva da melhor maneira, na Direção que foi estabelecida, e que todos juntos possam contribuir para a harmonia da Criação.”

Namastê!

 

ELAS – O caminho dos desafios

Vamos voltar à jornada da Heroína, através de um mito aborígene.

As irmãs Wawilaks se encontravam na chácara sagrada da Serpente Arco-íris, Yurlungur, quando acidentalmente contaminaram seu solo com uma única gota de sangue menstrual. Esse insulto não passou despercebido e a serpente Yurlungur, furiosa, fez com que as chuvas caissem incessantemente até inundarem a chácara.

Para apaziguar Yurlungur, as irmãs decidem cantar. Mas, nada acalma a serpente que emerge das águas e engole as Wawilaks e seus bebês recém-nascidos.

No interior da serpente, as irmãs sentem culpa e medo. No entanto, nada poderia fazer com que desistissem de sobreviver, pois o amor por seus filhos era inabalável. Elas resistem e choram muito até que são regurgitadas pela serpente. Graças à persistência, elas voltam à luz.

Como as Wawilaks, toda pessoa atravessa períodos de dificuldades, desafios. Por vezes, a perda da alegria e da esperança  faz com que nos sintamos enclausurados, na escuridão.

Como sair de uma situação desesperadora?
Usar o poder do guerreiro, nessa luta eterna, ou usar o poder interior do Espírito e a convicção para abrir o campo dos milagres a partir de uma receptividade pacífica e feminina?

As Wawilaks nos apontam um  caminho de retorno, de não desistência, de convicção íntima.

Elas – Unindo-se aos aliados

Guinefar, ou Guinever é mais conhecida por nós pelas lendas do Rei Arthur e a Távola Redonda.
Na maioria dos filmes ela aparece como uma princesa loira e católica que no caminho até se encontrar com Arthur se apaixona por Lancelot e isso cria um triângulo amoroso difícil.

Mas Gwenhwfar é muito mais do que isso.
Deusa da Terra do panteão celta, traz dentro de si o poder da união para a conquista da harmonia. É necessário que Arthur se una a Gwenhwfar para que ele possa reinar sobre as terras e trazer a tão sonhada paz.

É necessário ter aliados para governar.
Para que a Távola Redonda tenha todo o poder ela deve contemplar a todos.
Cada um traz consigo uma energia, uma força, um recurso.
E é a união delas que nos fornece uma gama infinita de possibilidades de conquistas.

Como você procura e se une a seus aliados? Como você comparte seus recursos? O que recebe em contrapartida?
Você dá seus recursos ou eles são arrancados de você?
Você se senta ao lado do rei? Ou deixou que lhe tomassem sua força?
Segue junto com Arthur ou foge com Lancelot?

 Texto de Denise Scalon, 

Artista plástica, co-criadora do jogo Elas.

ELAS – A identificação com o masculino

A viagem da heroína começa com uma separação inicial dos valores femininos, buscando reconhecimento e sucesso em uma cultura patriarcal, experimentando a morte espiritual e se voltando para recuperar o poder e o espírito do feminino sagrado. As etapas finais envolvem um reconhecimento da união e do poder da natureza dual para o benefício de toda a humanidade (Murdock, 1990, pp. 4-11). Com base em mitos culturais, Murdock ilustra um modelo de viagem alternativa ao da hegemonia patriarcal. Tornou-se um modelo para romancistas e roteiristas, iluminando a literatura feminista do século XX.

Deuses e deusas são muitas vezes vistos como formas diversas de ser no mundo e a deusa antiga, Juno, simboliza o segundo estágio da Jornada da heroína no jogo ELAS. Esta deusa da civilização romana foi educada pelas Horas. Ao conhecê-la, Júpiter, que era seu irmão, apaixona-se por ela.

Como Juno resistia a seus avanços, Júpiter decidiu aproximar-se por meio de um estratagema. Ele se transforma em um pássaro, parecendo fraco e enregelado. A compassiva Juno o toma nos braços para protegê-lo e aquecê-lo. Júpiter, então, retoma suas feições e violenta Juno, forçando-a assim a aceitar casar-se com ele. Este estágio envolve uma identificação com o masculino, mas não a masculinidade pessoal interna. Pelo contrário, é o masculino patriarcal externo cuja força motriz é o poder. Um indivíduo em uma sociedade patriarcal é levado a buscar o controle sobre si mesmo e os outros em um desejo desumano de perfeição.

A jovem pode ver os homens e o mundo masculino como adulto e se identifica com sua voz masculina interior, seja essa a voz de seu pai, o deus pai, o estabelecimento profissional ou a igreja. Infelizmente, a consciência masculina muitas vezes tenta ajudar o feminino a falar; Salta, interrompe e assume o controle, não esperando que seu corpo conheça sua verdade.

A próxima etapa, como a jornada do herói, é a Estrada dos Ensaios, onde o foco está nas tarefas necessárias para o desenvolvimento do ego. No mundo exterior, a heroína atravessa os mesmos arcos que o herói para alcançar o sucesso. Tudo está orientado para escalar a escada acadêmica ou corporativa, alcançar o prestígio, a posição e a equidade financeira e sentir-se poderoso no mundo.

No entanto, no mundo interior, sua tarefa envolve a superação dos mitos da dependência, da inferioridade feminina ou do déficit de pensamento e do amor romântico. Muitas mulheres foram encorajadas a ser dependentes, a desconsiderar suas necessidades de amor de outrem, proteger outras de seu sucesso e autonomia.

Jogando o ELAS as vivências propostas nos ajudam a fazer essa jornada tocando cada uma das dimensões em que a experimentamos – o corpo, a mente e o espirito. Dessa maneira, podemos identificar como foi que construímos a nós mesmos, nossos paradigmas, a estrutura social e a psíquica. Também nos convida a identificar quais arquétipos temos no nosso mundo interno. São eles os que nos levam a responder de modo automático às demandas da vida, desprovidos de consciência e com a ausência dos poderes do sagrado feminino.

Ao identificá-los, isso nos dá a possibilidade de escolher incorporar esta consciência e poderes e começar a atuar e sentir de forma mais integrada e compassada com nossa porção feminina.

  • Bibliografia
  • Campbell, J. (1949). O herói com mil rostos. Princeton, NJ: Princeton UP.
  • Campbell, J. Entrevista com o autor, Nova York, 15 de setembro de 1981.
  • Murdock, M. (1998). O livro de jornadas da heroína. Boston: Shambhala Pub.
  • Murdock, M. (1990). A jornada da heroína: busca da mulher para a totalidade. Boston: Shambhala Pub.
  • Woodman, M. (1992). Deixando a casa do meu pai: uma jornada para a feminilidade consciente. Boston: Shambhala Pub.
  • Zolbrod, PG (1984). Dine bahane: a história da criação de Navaho. Albuquerque: Novo México Pub.

Texto de Kayala Tannus : Terapeuta holística, conferencista internacional, integrante do Gamifica Mundi.

ELAS – A separação do feminino, primeira etapa da jornada

Começamos o caminho da heroína com Nyai Loro Kidul, deusa sereia da ilha de Java. Nyai era a filha única do rei Pajajaran. Como a lei não permitia que uma mulher reinasse, seu pai casa-se novamente para ter um filho que ocuparia o trono depois de sua morte. Sua nova esposa lhe dá o tão aguardado herdeiro.

A rainha, no entanto, tinha grande ciúmes da beleza de Nyai Loro Kipul. Diz, então, ao rei que ele deveria escolher entre ela e sua filha, ameaçando abandonar o palácio com o futuro herdeiro em caso de decisão desfavorável. Incapaz de decidir, o rei recorre a uma feiticeira. A bruxa faz com que Nyai se torne vítima de uma doença de pele incurável, pois acreditava que a princesa, não sendo mais bela, poderia continuar no castelo sem incomodar a invejosa rainha.

Mas Nyai não se conforma com sua nova condição. No seu desespero, ela ouve uma voz dizendo-lhe que se atirasse ao mar, pois lá poderia curar-se. Então, ela deixa o palácio e lançar-se ao oceano. Os demônios e espíritos a acolhem, restabelecem sua beleza e a coroam como a Rainha dos Mares do Sul.

Em nossa sociedade, o mundo é visto através de uma perspectiva masculina. Assim, as características associadas ao feminino são julgadas distorcidamente como inferiores. Por muito tempo mulheres foram consideradas passivas, dependentes, manipuladoras, sedutoras, carentes de poder. Em nossa cultura, que internalizou esse mito, surge uma dualidade: de um lado, o mundo masculino que parece valorizar a independência e o sucesso, e do outro, o universo feminino que parece ensinar a viver através do outro e não buscar sua própria realização.

Segundo Joseph Campbell, a tarefa do herói e da heroína é romper com a ordem estabelecida e criar uma nova.
Assim sendo, o primeiro passo nesse sentido se dá pela separação do feminino, muitas vezes representada pela rejeição da mãe ou pela rejeição de seu modo de viver. No entanto, ao fazermos isso, negamos aspectos da natureza feminina tais como a criatividade, a sensualidade, a intuição, etc. Para alcançarmos a cura dessa separação e atingir um estado de inteireza é preciso avançar nessa jornada. É um caminho de desafio e surpresas. Vamos?