Os musos da FLIP

Na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – deste ano, a Folha de São Paulo fez uma reportagem ímpar com três autores presentes: eles foram sagrados “musos” da Feira e responderam a perguntas que normalmente são destinadas às mulheres, como “qual a rotina de beleza, os cuidados com o corpo e a dificuldade em conciliar carreira e filhos”.

As respostas foram bem humoradas e igualmente irônicas. O poeta e tradutor Guilherme Gontijo Flores disse: “Eu tenho medo de acharem que eu sou apenas um rostinho bonito sem conteúdo. Espero que valorizem também meu trabalho e não apenas o meu corpo”. [risos]

A grande importância dessa brincadeira é mostrar a disparidade da atenção dada a um homem e à uma mulher de destaque. Veja só: ninguém se importa com o que o homem está vestindo, o foco é sempre para seu trabalho. Já no caso feminino, por mais importante que seja o cargo, as perguntas são rasas e costumeiramente o julgamento de valor não é pelo trabalho, e sim pela aparência. Está mais do que na hora de mudarmos isso!

Outra frase de Flores: “A questão é não existir essa cisão sexista em que a mulher é da ordem do corpo e o homem é da ordem da mente. Isso é terrível.”

Precisamos nos policiar para nós também não reduzirmos as mulheres a cabides de roupas e maquiagem. Vamos dar a devida atenção às carreiras e feitos de nossas iguais!

Não quero! Quero!

Não quero.
Nossa sociedade privilegia a negatividade. Programas de televisão que exploram minuciosamente os casos policiais, reality shows em que vemos pessoas brigando têm audiência garantida. O fato é que desde crianças ouvimos lamúrias de vários tipos e em vários tons. As discussões sobre os descalabros da política, as dificuldades nos relacionamentos, as censuras dos pais por não sermos exatamente o que eles tinham em mente… Em poucos anos aprendemos a “colecionar o negativo” e esquecemos de agradecer ou valorizar o positivo.

Assim, já adultos, nós nos tornamos detectores eficientes de tudo o que não queremos. Mas, esse processo, muitas vezes torna-se inutilmente acusatório. “Eu não quero que você chegue tarde. Eu não quero que meu filho brigue na escola. Eu não quero que meus amigos fiquem distantes. Eu não quero ser obrigada a cumprir sempre os mesmo rituais dominicais”, etc. Pronto: ingredientes perfeitos para se compor uma sopa muito indigesta. Primeiro, só vemos o que não queremos. Segundo, não temos poder nenhum, pois somos “vítimas”.

A identificação do negativo tem que ser uma etapa em direção aquilo que queremos. É importante sim, enxergar, perceber as mudanças na vida que se fazem necessárias. Mas, cuidado com os “ não quero…” eternos. Eles podem aprisionar. No fundo, são desculpas, pois não nos obrigam a fazer nenhuma mudança, já que o culpado é o outro. E quando o negativismo se torna constante paramos de acreditar que podemos transformar, paramos de sonhar. Para agir temos que ser criativos. E não há criatividade em reclamações repetidas e em crenças sombrias.

Quero!
Quando se identifica algo que não é bom, é preciso passar rapidamente para a fase do “quero”. Vamos pegar um exemplo exagerado. Alguém que reclama para si mesmo: “Não quero mais ter essa vidinha sem sentido. Estou sempre só e não faço nada de diferentes nos finais de semana!”

Passar seus dias repetindo mentalmente essa frase só terá o efeito de cristalizar esses pensamentos e dar-lhes força suplementar, criando a sensação de estar sem saída. Existe a consciência do não desejo, mas o desejo está submerso na descrença e na desistência. A solução é agir na criação: “Quero muito fazer algo diferente neste fim de semana. Vou selecionar uma peça de teatro. Vou convidar um amigo. Acho que vai ser muito legal.”

No fundo, o fato de poder imaginar, sonhar algo diferente, já é uma saída. É a liberdade mental de estabelecer o novo, de sair do lugar conhecido e arriscar novos passos em direção ao desejo. Ninguém sabe o que poderá acontecer. Mas, a sensação de estar tomando para si a direção do seu destino é única. É o reino do quero, do gosto, do desejo e faço. Reino de infinitas possibilidades.

Não sei quantas almas tenho

  • Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.