Você já cuidou de si mesma hoje?

Hoje, resolvi me desfazer de boa parte das minhas plantas. Motivo: cansei de cuidar.

Tenho tido preguiça de regar as coitadinhas e, de verdade, ninguém merece passar sede. Gosto demais de tudo o que vive para fazer parte daqueles que descuidam. Meus maiores vasos serão transferidos para o jardim de meu prédio, onde serão devidamente tratados e ficarei feliz por eles.

Parece incrível, mas tudo tem pesado na minha rotina. Cadê aquela vida desocupada, engraçada, cheia de imprevistos gostosos? Pois é, o cuidar acabou com ela.

Tenho as obrigações do trabalho, que embora sejam interessantes, são deveres. Além disso, como não tenho mais empregada, cuido da casa, das compras, da comida, da organização, de tudo.  Cuido de meu filho e de meus pais. Cuido da minha cadela. Não é desagradável, todos são seres lindos que eu amo, mas a responsabilidade está lá. E de repente, onde está a diversão?

Por que, e sobretudo, como ficou tudo tão “sério”? Meu marido discute sobre política diariamente. Eu, de verdade, quero esquecer que moro neste país maluco, esquecer a Síria, o Trump e a Coréia do Norte. Tenho certeza de que tem gente normal no planeta. Certeza!

Aí, escolho ver documentários que me mostram isso: um planeta magnífico, pessoas que são decentes e atuantes, que vivem no reino da bondade. É para lá que eu quero ir. Como é que se faz?

Mas, tem tanta coisa (gente, bicho, planta) que depende de mim! Aí, ficamos assim: eu relego minhas escolhas prazerosas para outro dia, porque algo ou alguém precisa da minha ação responsável agora. E assim, vamos levando. Fica a pergunta: será que não assumo coisas demais por estar habituada a colocar meus sonhos em segundo (terceiro, quarto, quinto…) lugar?

Assim, faço para mim mesma a proposta de me dar prioridade, de lembrar que sou a única que pode me fazer feliz. Cuidar de mim, para variar.

Propaganda para as +50′

Parece que finalmente a propaganda está descobrindo as mulheres de +50. Em Orlando – EUA, no início do ano, vi esta vitrine em uma loja de artigos esportivos no Mall at Millenia:

O poster é a imagem de uma senhorinha em posição de yoga.
 
E hoje vi esta vitrine da C&A também se utilizando de uma mulher madura para sua propaganda:
[também fiz minha primeira tatuagem aos 50′, hihiiii]
 
Ela está usando uma jaqueta bomber bordada que está no manequim na mesma vitrine (repare na primeira foto).
A mensagem, tanto aqui quanto na exposta nos Estados Unidos, é a mesma: nossa loja tem produtos que vestem quem passou dos 50.
 
Apoio 100% a iniciativa. Tomara que isso não seja somente publicidade vazia e que realmente possamos cada vez mais encontrar peças que nos atendam na maioria das lojas.
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A passagem do tempo

Por mais que sejamos mulheres vaidosas, bem cuidadas, atentas à saúde, chega um determinado momento da vida em que o tempo começa a mostrar os sinais da sua passagem. A lei da gravidade é implacável: a pele fica flácida, a musculatura perde o contorno, o famoso “bigode chinês” se faz visível. A textura e o volume do cabelo sofrem modificações, o aspecto da pele também. Mãos, pés, pescoço, abdômen, tudo ganha uma aparência diferente daquela que estávamos acostumadas a observar. Um dia você levanta, se olha no espelho e se estranha… essa sou eu?

Essa constatação não é fácil nem simples, muito menos indolor. Dentro de uma sociedade que valoriza a juventude e a aparência, fica difícil envelhecer. E por essa razão, muitas de nós se perdem dentro do labirinto da ilusão de rejuvenescer a qualquer custo, caindo no conto do vigário de produtos milagrosos que prometem aparência de 20 anos para quem já está beirando os 50 ou 60… procedimentos invasivos justificados pela busca do corpo perfeito!

Vamos parar para pensar, o que estamos fazendo com a nossa estória de vida? Uma coisa é ser mulher e ser vaidosa, o que eu considero totalmente válido; eu, pessoalmente, sou bastante vaidosa, adoro um cabelo bem cuidado, a pele tratada, um bom perfume, uma roupa que valoriza meu corpo. Admiro mulheres que envelhecem e não deixam de lado o cuidado que sempre tiveram em relação a si mesmas, até porque parece não fazer nenhum sentido abrir mão da beleza e do bem estar só porque não se tem mais 20 anos! Mas outra coisa é ficar enlouquecida atrás de tentativas inúteis e enganosas para tentar manter a mesma aparência de antes!!

 

A menina de 20 anos que eu fui está dentro de mim, mas não sou mais ela, é só uma parte entre outras tantas. Foi superada por outras mulheres que vieram depois e viveram outras estórias, descobriram e exploraram outros universos, mais complexos e desafiadores. A cada momento surge outra mulher que agrega, soma, completa, destitui, questiona, descobre, se encanta e se desencanta, desconstrói e constrói outra coisa. A cada volta que eu dou na espiral da vida, desperta um “eu” diferente, e esse eu tem outro rosto, outro cheiro, outro olhar, outra maneira de seduzir e deixar-se seduzir.

E sabe de uma coisa? O melhor disso tudo é poder transformar-se, metamorfosear-se feito uma camaleoa, como bem cantou Caetano. Então, qual o valor de manter a mesma aparência se já não somos mais a mesma pessoa?

E nesse momento vem na minha cabeça a lucidez e a sensibilidade de Adélia Prado no seu livro inspirado e inspirador, “Erótica é a Alma”. Vou reproduzir abaixo um pequeno trecho que deveríamos colar na porta da geladeira, no espelho do banheiro, como um lembrete ou uma bússola a nos guiar nas noites escuras do medo:

“Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade para ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerância, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores. Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.”

Pois bem, que possamos cuidar da alma mais do que cuidamos do corpo, porque é ela, nossa essência e estrutura, que quanto mais velha, melhor fica!!

Viva a Bagunça!

Em tempos de Marie Kondo, a vida andava difícil para o desorganizados de plantão. A autora do best seller internacional que preconiza a “magia da arrumação” e que nos ensina ter apenas o que “nos traz alegria” e manter a casa impecavelmente arrumada teve seu método difundido pelo mundo inteiro e conquistou uma legião de seguidores. Alguns deles, até um pouco radicais.

O japonês Fumio Sasaki autor do livro “Goodbye, Things: The New Japanese Minimalism” declara que sua vida melhorou muito depois que doou 90% de seus pertences. Ele mora em um apartamento em Tóquio onde vive alegremente com 150 objetos no total. (!!!!!)

Mas, como fica a vida de quem curte uma baguncinha, de quem gosta (secretamente) de ter quarto desarrumado ou até virado de cabeça para baixo?

Pois bem, desorganizados crônicos, bagunceiros patenteados, gênios da baderna, adolescentes enlouquecedores de mães, o vento mudou!
Felizmente para essa tribo de seres excluídos do mundo perfeitamente organizado, surgiu um livro que está alcançando o maior sucesso nos Estados Unidos: “Messy: The Power of Disorder to Transform Our Lives” (Riverhead Books).

Nele, o economista britânico Tim Harford defende “o direito à desordem no espaço pessoal”.
Segundo Harford, a falta de organização seria um “dom” e revelaria a capacidade de adaptação a novos contextos, um fluxo contínuo de criatividade. Palavras doces para quando nos encontramos em um escritório pleno de “desordem criativa”.

Seu sucesso é a prova que no mundo há sempre um pouco de tudo e que não há “bom ou mau”, “certo ou errado” absolutos e que todas as pessoas, com suas características individuais, querem o reconhecimento do mérito de suas escolhas e o respeito à forma como decidem existir.

Assim, como sempre, fica mais uma vez evidente que não há regras exatas para o bem-viver. Viva a organização ou viva a bagunça, pois a jornada de cada um é única e a aventura pessoal é inegociável. Ufa! Ainda bem!

Fonte: Madame LeFigaro.Fr aqui e aqui


Se eu fosse eu…

Começo roubando o título do texto de Clarice Lispector (sim, é dela mesmo, não é algum erro ao estilo Facebook) para pensar sobre a vida.

Se eu fosse eu, o que faria? Porque a vida é tão curta, tão frágil, e no dia a dia nos esquecemos disso.

A fragilidade só é lembrada quando alguém que conhecemos e queremos bem morre de repente. Aí passamos uns dias perplexos com sua finitude. Mas logo esquecemos e voltamos a nos sentir imortais.

Porque o acidente de carro só acontece com o outro. Assim como o sequestro relâmpago ou assalto. E o câncer. “O Outro” é uma entidade que está fora de nós e que absorve tudo que há de mal no mundo.

Outra forma de ver é que a vida é somente uma viagem. Que tal aproveitá-la em sua extensão toda e não só nos shows pirotécnicos? Todos os dias são importantes, não somente o grande evento aguardado.

E a frase que mais fala comigo: Na vida não há ensaio…

E é por isso que me pergunto: se eu fosse eu, o que faria?

Quando eu não sei onde guardei um papel…

“Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.”   

Clarice Lispector