Um tempo para não fazer nada

Olhem que interessantes este dois posts sobre como aproveitamos nosso tempo:

4 Absurdly Easy Things I Do That Make Life Disproportionately Better

O que estamos falando aqui é da “arte” de não se fazer nada. Nós, humanos, temos por hábito nos ocupar o tempo todo. Veja sua agenda: aquele espacinho vazio ali não está lhe incomodando?

Imagine separar um dia inteiro na semana, ou então alguns minutos todos os dias, para ficar só com seu eu interior: sem trabalhos, sem celular, sem tv, sem distrações externas.

Por estar trabalhando somente em suporte às Empresas e não indo mais à Sede todos os dias, me sinto meio de férias eternas. E mesmo assim… preencho o tempo com afazeres, seja ler, escrever, me atualizar. Como será ficar totalmente desconectada das rotinas diárias?

Uma forma conhecida e provada de conseguir isso é a meditação. Você se torna mais presente e mais centrada com esse hábito. Mas, e quem não consegue meditar? [eu fico desesperada com o “inspire-expire”, em pouquíssimo tempo me sinto sem ar! Vai entender…]

Mesmo para quem não vê como incorporar a meditação à rotina, ficar somente alguns minutos parado sem qualquer estímulo está sendo considerado como de caráter francamente benéfico. O segundo artigo diz para sentar no chão e somente deixar a vida correr, por em média 20 minutos diários. Ouvir os pássaros ou a barulho do motor da geladeira, não importa. Somente descanse a mente.

Vou incorporar essa dica à 2017. Simples e, pelos relatos dos artigos citados, muito positivo. Você topa?

Obs.: Este post apareceu primeiro no blog Pílulas de Moda e foi escolhido para republicação aqui devido minhas férias.

Todas As Vidas

– Cora Coralina –
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.

Bota feitiço…

Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
 
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
 
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
 
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
 
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem chiadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
 
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
 
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
.

Os dois deuses do tempo

Somos todos diferentes e únicos, mas há algo que todos recebemos diariamente em igual dose: o tempo. À cada pessoa são dadas as mesmas 24 horas. São as nossas decisões, escolhas, os usos que fazemos delas que determinam nossa qualidade de vida.

Segundo os antigos gregos (vamos falar a verdade, eles sabiam das coisas), dois deuses regem o tempo: Chronos e Kairós.

Chronos é a denominação grega do nosso tão conhecido Saturno, muito citado recentemente por sua influência energética que nos atingirá nos próximos anos.

Mitologicamente, Chronos era um deus tirânico, cruel, que controlava o tempo do nascimento até a morte. Devorava seus filhos para conservar seu poder, sem rivais. Esse deus dominador é a representação do tempo quantificável, o tempo que destrói tudo o que produz, implacavelmente. Estamos frequentemente sob seu julgo. Obedecemos a prazos, tentamos cumprir metas, seguir os ritmos que nos são impostos. Mais que isso, há mesmo aqueles que querem ter a aparência jovem durante a vida inteira e travam uma batalha sem fim com Chronos, através de cirurgias plásticas, tratamentos… Uma luta inglória, pois o Tempo põe fim a tudo.

E qual é o mito de Kairós? Ele era representado por um jovem calvo, com um cacho de cabelo na testa, com asas nos ombros e nos calcanhares. Era impressionantemente ágil, se deslocava muito rapidamente e só era possível detê-lo agarrando-o pelos poucos cabelos e encarando-o de frente. Era tão fugaz que muitas vezes passava despercebido. Mas, depois que se ia, não era possível trazê-lo de volta. Para vermos Kairós, precisamos estar no momento presente. Ele é o deus da oportunidade, do momento adequado. É necessário agarrar e viver a oportunidade, pois ela poderá não mais aparecer e não vai esperar por nós.

Kairós é o tempo que não pode ser planejado. Ele acontece. São momentos que se tornam eternos, mesmo que tenham sido muito breves. É um tempo interno, sem nenhuma relação com o relógio. Em Kairós, nos sentimos vivos. Em Chronos, sobrevivemos.

Os gregos acreditavam que, ao vivermos em Kairós, podemos enfrentar Chronos. Se tivermos a consciência do momento presente, sempre fluido, mutável, único, podemos ver as oportunidades. E seguimos mais leves, sem fardos do passado ou antecipações do futuro.

No entanto, nossa sociedade está muito ligada ao tempo mensurável. Organização, planejamento, datas são elementos que nos permitem uma maior eficiência, são a base da nossa cultura. Porém, nada nos impede de viver Kairós. Nada nos impede de estar presentes, atentos às oportunidades, experimentando, usufruindo, tornando o tempo cronológico significativo. Tudo isso para dizer que, nestes tempos de Saturno, temos sempre escolha: podemos equilibrar rotina com ritual, obrigação com prazer, Chronos e Kairós, aprendendo a dançar com maestria esse intrincado ballet.

É um belo desafio.

Obs.: Este texto foi inspirado neste vídeo de Pá Falcão e neste texto.

Personalidade captura o coração

Numa época de tamanho culto ao corpo, como ficamos ao envelhecer? Se você já fez 50 anos sabe do que estou dizendo: o corpo muda, a pele muda, você se olha subitamente no espelho e não se reconhece. 

Por outro lado… 

A gente conquista regalias nesta idade! Temos a tão ansiada independência financeira. Os filhos estão crescidos e não são mais dependentes de nós como eram quando pequenos. A gente já não perde tempo com pessoas tóxicas, simplesmente as ignoramos. Não brigamos no trânsito. Não precisamos colocar o Ego na frente de toda interação humana.

Frente a tudo isso, será que vale a pena ficarmos nos preocupando tanto com ruginhas e peso ideal?

É para vocês a frase abaixo:

No final das contas é a personalidade que encanta por tempo indeterminado, que cria as relações humanas mais profundas. Logo, envelhecer não é problema pois personalidade nós temos de sobra!

Queridas +50, tenham um dia maravilhoso!

Obs.: Este post está sendo publicado aqui e no blog Pílulas de Moda ao mesmo tempo, devido minhas férias.

Férias!!

Passadas as festas de final de ano e toda correria que isso implica, chega o tão esperado momento das férias. Para cada uma de nós férias tem significados diferentes, ou propostas diferentes, que dependem do nosso momento e das nossas possibilidades.

De qualquer maneira o desejo passa pelo não compromisso, pela ausência do relógio e pela oportunidade de se fazer o que bem se entende, sem atrelamentos que nos acompanham todos os outros incontáveis dias do ano!

Férias tem cheiro de terra molhada, de dama da noite que esparrama seu perfume pelo ar, de brigadeiro que gruda no fundo da panela, de maresia, de eucaliptos que balançam ao vento. Tem cheiro de infância, da nossa e de nossos filhos, ou netos. Combina com risada de criança, fila para banho na casa que reúne toda família, o correr para tirar as roupas do varal antes que a chuva caia. Combina também com areia esparramada pelo chão, com ataques de riso frente ao inusitado, com bolas e mais bolas de sorvete com direito a cobertura. Férias tem sabor de liberdade…

Pois é, eu estou saindo de férias e me dei o direito de não levar o notebook, não ficar plugada na internet, trocar o facebook pelo “face to face”. Por esta razão só voltarei com os textos no primeiro domingo de fevereiro. Mas programei algumas poesias que serão postadas nos próximos domingos de janeiro. Achei que férias e poesia também combinam, têm a ver com aproximar-se de si mesmo, tocar o coração, se encher de beleza.

A todos vocês, boas férias! Mesmo aos que vão continuar trabalhando, que não saem nesse período do ano, aproveitem as férias dos outros. A cidade mais esvaziada, o transito que flui, as ruas mais tranquilas, a oportunidade de se fazer o que se deseja sem ter que encarar longas filas, o horário de verão que deixa o dia mais longo, e nos dá a oportunidade de aproveitar o parque, a piscina, o bar com os amigos, a sorveteria com as crianças após o expediente. Pensando bem, férias é um estado de espirito com maior tempo disponível, é vontade de curtir a vida, de buscar o prazer possível, de ter leveza e beleza nos olhos para olhar a vida com outra disposição.

Até a volta, continuem acessando e se deliciem com a poesia!